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FSSPX, escândalos sexuais, Vaticano II - texto inédito de E. Michael Jones




Lefebvristas, escândalos sexuais, Vaticano II: Os grandes desafios da Igreja


Temos a honra de apresentar neste blog a tradução inédita deste artigo do Dr. E. Michael Jones, filósofo e historiador americano, certamente uma das mentes mais lúcidas da Igreja de hoje. O artigo original foi publicado na edição de setembro da revista Culture Wars, dirigida pelo mesmo Dr. Jones.

Nele são tratados os principais desafios da Igreja de hoje: o problema dos escândalos sexuais e o problema do restabelecimento da comunhão da FSSPX com Roma. E. Michael Jones narra a sua visita ao quartel-general da FSSPX em Wimbledon, na Inglaterra, onde ministrou uma palestra e conversou com o bispo Williamson a respeito das perspectivas pouco animadoras do diálogo com Roma. Também são tratados os problemas dos escândalos sexuais no clero na perspectiva histórica dos desvarios da implementação do Concílio Vaticano II. e suas relações com a revolução sexual dos anos 1960. De especial interesse são as revelações sobre a prática sistemática na época da pedofilia nos ambientes esquerdistas radicais, por figuras notórias como Daniel Cohn-Bendit, líder estudantil em maio de 68 e hoje membro do Parlamento Europeu.

Leitura das mais úteis neste momento difícil da história da Igreja, Dr. Jones nos recorda ao final do artigo a história de Marcos 4:37-41, quando Cristo faz cessar as tempestade que sacudia a barca onde estavam os apóstolos. Então como agora, o que estava em questão não era a presença de Cristo na barca da Igreja, mas a profundidade de nossa fé.

A tradução é de Yours Truly. 

O Tradicionalismo nas últimas

E. Michael Jones

Copyright E. Michael Jones  


22 de junho de 2010

Quando o Olho de Sauron que atende pelo nome de comunicação de massa cravou pela primeira vez seu olhar de fogo no bispo Richard Williamson, no dia seguinte à tentativa papal de trazer a Fraternidade Sacerdotal São Pio X de volta à comunhão da Igreja, suspendendo as excomunhões que se seguiram latae sententiae ao ato que sagrou bispo a Williamson, Sua Excelência vivia na Argentina, onde era reitor de um dos seminários da Fraternidade. Hoje ele vive em Wimbledon, Inglaterra, lar do famoso torneio de tênis. Se lar é o lugar que nos deve abrigar quando ninguém nos quer, é evidente que o quartel-general da FSSPX em Arthur Road era o seu lar. A suspensão dasexcomunhões como um prelúdio ao fim do cisma provocou a esperança de que o bispo Williamson pudesse de novo encontrar um lar na Igreja, mas, ao me aproximar de Wimbledon, os sinais eram confusos. A suspensão das excomunhões marcaram o começo das negociações, mas os sinais vindos das negociações também eram confusos. O cardeal Walter Kasper anunciou poucos dias antes da minha chegada que as negociações tinham chegado a um impasse; indicações do outro lado eram igualmente desanimadoras. O bispo Fellay, outro dos quatro bispos, fora entrevistado no seminário da FSSPX em Winona, Minnesota, e a entrevista fora postada no YouTube. Fellay dava início à entrevista fazendo de Williamson seu bode expiatório, e de lá desceu ladeira abaixo. “A Igreja está com câncer,” opinou o Bispo Fellay, “e se abraçarmos a Igreja pegaremos câncer.” Prosseguiu dizendo que a FSSPX se reservava o direito de consagrar outros bispos se as negociações tivessem um desfecho insatisfatório. A esperança de unidade parecia muito distante enquanto eu observava do trem os preparativos para o torneio de tênis de Wimbledon deste ano. Os campos que circundam Wimbledon estavam cheios de gente, muitos dos quais estavam armando tendas neste dia quente de fins de junho.

A algazarra ao redor do certame de tênis parecia especialmente distante porque naquele exato momento um ugandense de nome Jasper berrava a epístola de Paulo aos Hebreus ao meu ouvido, por sobre o barulho do trem. Jasper começou a conversa informando-me que havia sido católico. Fora, na verdade, seminarista, até ser capturado pelo movimento revolucionário ugandense conhecido como Exército do Senhor e partir em marcha para Deus sabe onde. No que se refere a exércitos ugandenses, o Exército do Senhor provavelmente não era tão mau quanto o exército de Idi Amin, que exterminou centenas de milhares de ugandenses e os lançou ao Nilo. Havia tantos cadáveres na água que até mesmo os crocodilos não conseguiam comê-los todos. Assim, eles começaram a entupir a entrada dos canos da usina elétrica local. Com isso, ser prisioneiro do Exército do Senhor não era uma situação tão má como a de alguns anos antes, mas também não era uma maravilha. Jasper e seus colegas de cativeiro estavam marchando já havia algum tempo quando deram com o exército do atual regime, os sucessores de Idi Amin, e se seguiu um tiroteio em que Jasper foi ferido na perna.

Neste momento ele fez uma pausa em sua narrativa autobiográfica, agachou-se e puxou a perna esquerda das calças para mostrar vários ferimentos do tamanho de moedas em sua pele cor de chocolate.

- Foi aqui que as balas entraram na minha perna, - disse ele.

Neste momento todos os passageiros do trem pararam o que estavam fazendo para dar uma espiada na perna dele. Em seguida, desviaram os olhos e voltaram aos seus jornais ou puseram-se a olhar pelas janelas, ouvindo seus ipods. Jasper também voltou à leitura da epístola de Paulo aos Hebreus, fazendo uma pausa para dar ênfase à leitura de “e lembrem-se de sempre receber bem os estrangeiros, pois ao fazer isto alguns trataram com anjos, sem o saber.” É claro que Jasper sentia que este trecho era de especial relevância para a nossa situação.

O trecho da Escritura ficou preso a um ramo da minha consciência como uma peça valiosa de roupa sendo lavado pela enxurrada de palavras que jorrava da boca de Jasper desde que lhe sugeri voltar à Igreja. Nos dias de hoje, todos parecem ser Robinsons Crusoes espirituais, abandonando-se voluntariamente numa ilha espiritual de sua escolha e declarando-se seu próprio papa. Tento concentrar-me no que ele diz, sobretudo quando ele relaciona o nosso presente encontro com a citação do anjo em Hebreus, mas no momento não consigo compreender se eu sou o anjo para ele ou ele para mim.

- Você precisa de fé – disse-me ele.

- Não, - respondi, mais interessado em saber o que os passageiros vindos de Londres estavam achando da nossa conversa.- Eu tenho fé. Você precisa da Igreja.

Minha resposta desencadeia mais uma enxurrada de versículos bíblicos do tipo que já ouvi mais de uma vez da boca de ardentes fundamentalistas nos Estados Unidos. Quando repliquei com, “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela,” se vale da etimologia, alegando que “ecclesia” significa “assembleia,” o que é verdade, e, portanto, qualquer assembleia que proclama a palavra de Deus é a Igreja.

- Você e eu somos igreja, - disse Jasper em tom grave, omitindo o artigo definido como alguém do programa litúrgico da universidade de Notre Dame.

- Não, não somos, - repliquei eu. - Sou um membro da Igreja e você é um ex-membro, e é este o assunto de toda esta discussão.

Também isto provocou uma torrente escritural, que jorrou de sua boca como o transbordamento do rio brasileiro que vi na noite anterior na BBC. O equivalente teológico das geladeiras, carros, galinheiros, etc., passou impetuosamente por meus ouvidos enquanto eu tentava avaliar a significação teológica de tudo aquilo. Devia haver uma razão para aquilo acontecer, repito para mim mesmo, mas tudo o que consigo dizer a Jasper é “Você não está ouvindo o que digo,” o que, é claro, dispara outra enxurrada de trechos bíblicos, que ainda estaria jorrando enquanto escrevo isto se o trem não tivesse chegado à estação de Wimbledon Park, onde me ergui e desembarquei.

A certa altura da nossa conversa, eu disse a Jasper que ia dar uma palestra sobre a crise dos abusos sexuais perpetrados por padres na Irlanda. A imagem que isso evocou na mente de Jasper deve ter sido fértil, pois se transformou durante a nossa viagem de trem numa cena em que ele me via chegando a uma casa lotada de padres pedófilos, sem nada mais em meu arsenal espiritual do que a minha palestra para me defender. É claro que ele não tinha as palestras em alta conta, mas me recomendou expulsar demônios em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por um momento levei a sério a ideia de tomá-lo ao pé de sua mal informada letra. Pedofilia, cisma, seja o que for: deixar de lado a palestra e expulsar os demônios com autoridade. Não consegui livrar-me desta ideia o dia inteiro.

Quando cheguei a St. George’s House em Arthur Road, o quartel-general da FSSPX na Inglaterra, o bispo Williamson recebeu-me à porta. Haviam-se passado uns dez anos desde a última vez que nos havíamos visto pessoalmente, no seminário da FSSPX em Winona, Minnesota, onde dei uma palestra aos seminaristas acerca de filmes de terror. Desta vez a conversa se concentrou mais na situação da Igreja. Depois das brincadeiras iniciais, Sua Excelência me informou que, em razão do circo mediático de 2009, perdera todas as suas atribuições na FSSPX . Isto não é surpresa, pois eu vira a entrevista do bispo Fellay no Youtube. Assim, depois de ser expulso da Argentina, o bispo Williamson voltou à Inglaterra, onde hoje reside, pronto para tudo mas sem ter para onde ir. Todas as esperanças geradas pela suspensão das excomunhões em janeiro de 2009 foram suplantadas pelo bafafá criado pelo linchamento por parte da horda midiática que tentou obstar a reunificação da fraternidade e da Igreja trazendo à baila a questão da negação do holocausto. As vagas da tempestade já haviam amainado, mas parece que as possibilidades de reconciliação amainaram junto com elas.

Como mencionei, pouco antes de minha chegada à Inglaterra, o cardeal Walter Kasper anunciara que as negociações em Roma com a FSSPX não iam bem. Escrevendo no site Chiesa.com,i Sandro Magistro informava que as apreensões de Kasper eram amplificadas num artigo escrito por Eberhard Schockenhoff, ex-aluno de Kasper, hoje professor de teologia moral na Universidade de Freiburg. O artigo foi publicado na edição de abril de 2010 da revista jesuíta alemã Stimmen der Zeit, e nele Schockenhoff afirmava “que a real divergência entre a Igreja de Roma e os lefebvristas não se refere à Missa em latim, mas aos ensinamentos do Vaticano II, sobretudo no que se refere à eclesiologia e à liberdade de consciência e religião.” Tanto Schockendorf como Kasper temem que a readmissão da FSSPX venha a significar a sentença de morte de sua interpretação do Vaticano II e de todos os projetos dos últimos quarenta e tantos anos que nela se fundamentaram. Schockenhoff receia que “a manipulação exegética dos textos conciliares” permita a Roma e à FSSPX marginalizar o verdadeiro significado do concílio, deturpando o que Schockenhoff e presumivelmente Kasper consideram reformas genuínas como mal-entendidos pós-conciliares e experiências abortadas. Isto daria ensejo a que um “movimento de protesto antimoderno baseado no catolicismo pré-conciliar” adentre sorrateiramente a Igreja. Também marcaria o fim (embora Schockenhoff não diga isto) da hegemonia dos professores universitários alemães, cuja interpretação tem sido dominante mas em declínio desde o fim do concílio. A influência dos professores alemães declinou ainda mais, parodoxalmente, desde a ascensão de Bento XVI (a quinta-essência do professor alemão) à cátedra de Pedro. Schockenhoff compara as negociações com a FSSPX a “uma caminhada hermenêutica pela corda bamba, em busca da quadratura do círculo.” Também compara-as a “brincar com o fogo.”ii A questão é de interpretação: A interpretação de quem prevalecerá? Em outras palavras, readmitir a FSSPX significaria o fim da hegemonia da interpretação do Concílio dos professores alemães, que estes últimos gostam de apresentar como “a vontade da maioria dos padres conciliares”:

Ao propor uma interpretação oficial, impõe-se a textos conciliares centrais um significado diferente daquele que a vontade da maioria dos padres conciliares lhes dava. . . . . O que está em jogo aqui é a direção do futuro caminho da Igreja, direção esta que o Concílio escolheu quando decidiu abrir-se para o mundo moderno, quando optou pela solidariedade ecumênica com as igrejas ortodoxas e reformadas e pelo diálogo com os judeus e as outras religiões do mundo.iii

O principal responsável pela busca da “quadratura do círculo,” ou seja.,por tornar os documentos conciliares compatíveis tanto com a modernidade como com a tradição é, segundo Schockenhoff, o Papa Bento XVI. Magister alega que “ao explicar como interpretar o Concílio corretamente, Bento XVI mostra como ele de fato introduziu novos desenvolvimentos em relação ao passado, mas sempre em continuidade com ‘o mais profundo patrimônio da Igreja.’” E como exemplo desta interação entre a novidade e a continuidade, o papa aponta precisamente as ideias conciliares sobre a liberdade de religião: o principal ponto de divisão entre a Igreja e os lefebvristas.”

No dia 22 de dezembro de 2005, o Papa Bento fez um pronunciamento na cúria em que tentou explicar o Zeitgeist reinante quando o concílio estava reunido:

O Concílio teve de encontrar uma nova definição da relação entre a Igreja e a modernidade. Tal relação teve um início difícil com o julgamento de Galileu. Rompeu-se completamente quando Kant definiu a “religão dentro do limite da razão pura” e quando, na fase radical da Revolução Francesa, se difundiu uma imagem do estado do homem que visava praticamente a excluir pela força a Igreja e a fé. O choque da fé da Igreja com o liberalismo radical e também com as ciências naturais que pretendiam abranger em seu conhecimento a totalidade do real até suas últimas fronteiras, teimosamente empenhada em tornar supérflua a “hipótese de Deus”, provocara no século XIX sob Pio IX, da parte da Igreja, uma dura e radical condenação desse espírito da modernidade. Assim, aparentemente não havia espaço para nenhum acordo positivo e frutuoso, e também drásticas eram as recusas da parte dos que se sentiam representantes da modernidade.

No entanto, porém, a modernidade também teve os seus desenvolvimentos. Tornava-se claro que a Revolução Americana oferecera um modelo de estado moderno diferente dos teorizados pelas tendências radicais nascidas na segunda fase da Revolução Francesa. As ciências naturais começaram, de modo cada vez mais claro, a refletir sobre seus próprios limites, impostos por seu próprio método, que, embora obtendo grandes resultados, não podia compreender a totalidade do real.

Assim, ambos os lados começam progressivamente a se abrir um ao outro. No período entre as duas guerras mundiais e até mesmo depois da segunda guerra mundial, os estadistas católicos mostraram que pode existir um estado leigo moderno que, porém, não seja neutro em relação a valores, mas vive ligado às grandes fontes éticas da Cristandade. A doutrina social católica, tal como se desenvolveu, tornou-se um importante modelo entre o liberalismo radical e a teoria marxista do estado.

Em decorrência desta abertura para o mundo moderno, começam a surgir descontinuidades. Os católicos começam a condenar coisas que os santos de épocas anteriores consideravam louváveis. Analogamente, coisas que o Concílio considerou louváveis—coisas como o “diálogo com os judeus” de Schockenhoff — teriam sido condenados como perniciosos pelos padres da Igreja, como São João Crisóstomo. Rapidamente as descontinuidades se tornaram consideráveis demais para serem ignoradas, ou como diz o Papa Bento:

É claro que em todos estes setores, que juntos são um só problema, surgiriam algumas descontinuidades. Embora isto talvez não fosse plenamente avaliado no começo, as descontinuidades que surgiram – náo obstante as situações históricas concretas distintas e suas necessidades – impediram a continuidade no nível dos princípios.

Vê-se a Igreja no processo de reconciliar tais descontinuidades, e é este processo de reestabelecimento da continuidade com a tradição que Schockenhoff vê como uma traição ao significado do Concílio. A FSSPX , por outro lado, vê o processo de reconciliação como uma traição à doutrina da Igreja, e é justamente neste impasse que as negociações com a FSSPX se encontram neste momento.

É sentimento do papa que o Concílio foi bem-sucedido em ser ao mesmo tempo novo e ligado ao passado:

Ao definir de novo modo a relação entre a fé da Igreja e alguns elementos essenciais do pensamento moderno, o Concílio Vaticano II revisou e até corrigiu algumas decisões do passado. Mas numa aparente descontinuidade ele, ao contrário, preservou e reforçou sua natureza íntima e sua verdadeira identidade. A Igreja é Una, Santa, Católica e Apostólica tanto antes quanto depois do Concílio, ao longo do tempo. Ela “avança entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus”, anunciando a cruz e a morte do Senhor até que ele venha (cf Lumen gentium, 8).

No entanto, aqueles que esperavam que com este “Sim” fundamental à modernidade todas as tensões fossem desaparecer, e que esta “abertura para o mundo” tornaria tudo harmonioso, subestimaram as tensões e contradições interiores da modernidade; subestimaram as tensões internas e a perigosa fragilidade da natureza humana, que ameaçou a caminhada do homem durante todos os períodos e configurações históricas. Dado o novo poder do homem sobre si mesmo e sobre a matéria, tais perigos não desapareceram; ao contrário, adquiriram nova dimensão. Podemos ver isto claramente considerando a história atual.

Neste ponto, surge uma estranha semelhança entre a FSSPX e os liberais que querem mantê-los fora da Igreja. Tanto a FSSPX quanto o professor Schockenhoff alegam que a sua própria interpretação do Vaticano II deva ser considerada normativa. Tanto a FSSPX quanto o professor Schockenhoff (por motivos obviamente diferentes) afirmariam que o papa estava “tentando achar a quadratura do círculo,” pensando que a modernidade e a Igreja sejam reconciliáveis. Tanto a FSSPX quanto o professor Schockenhoff elaboraram uma interpretação particular de um particular concílio como o autêntico teste para a pertença à Igreja. Nem a FSSPX nem o professor Schockenhoff parecem capazes de conceber a ideia de que a Igreja embarcara em projetos, logo após o concílio, que se baseavam, num ou noutro sentido, em documentos conciliares, mas que foram muito além do que tais documentos conciliares autorizavam. “Gespräch mit dem Judentum” ou diálogo com os judeus, é um exemplo citado por Schockenhoff, que levou a uma quase total descontinuidade com o passado, algo que os bispos americanos descobriram quando tiveram de revisar seu catecismo. Deve a Igreja persistir nesta particular implementação do concílio? Ou deve admitir que este e outros projetos gerados pelo concílio, ao contrário dos documentos em si, não passam de experiências fracassadas baseadas numa compreensão inadequada do que estava realmente acontecendo durante os revolucionários anos 60? Está a Igreja obrigada a repudiar o Evangelho em nome do diálogo? É de esperar que não, mas a pergunta deve ser contextualizada antes de poder ser respondida. Se identificarmos o Concílio com “Gespräch mit dem Judentum,” como o professor Schockenhoff, a resposta está longe de ser clara. Schockenhoff pode chegar ao ponto de endossar aberrações pós-conciliares como a tese de que “a aliança mosaica é eternamente válida,” tese esta defendida e depois repudiada pelos bispos americanos, mas será que o papa iria tão longe? Provavelmente não. Mas o histórico do papa acerca da continuidade nesta matéria está longe de ser claro. Ele parece não perceber que o diálogo com os judeus, tal como praticado atualmente, implica o repúdio do Evangelho, e que proclamar o Evangelho é antitético com o diálogo com os judeus. Na atual situação, o problema está longe de ser resolvido, e a única coisa que hoje une tanto os professores alemães quanto a FSSPX parece ser a crença de que o papa está decidido a buscar a quadratura do círculo.

Era claro que havia gente dentro da Igreja que não queria que a reunificação acontecesse porque ameaçava a sua interpretação particular do Vaticano II como visão normativa. George Weigel foi uma das pessoas que se sentiram ameaçadas. “Não é fácil,” escreveu ele num editorial do Newsweek de fevereiro de 2009, “ver como a unidade da Igreja Católica sairá fortalecida se a facção lefebvrista não afirmar pública e peremptoriamente o ensinamento do Concílio Vaticano II sobre a natureza da Igreja, sobre a liberdade religiosa e sobre o pecado do antissemitismo. Na ausência de tal afirmação, o catolicismo de estilo self-service terá renascido nas fronteiras extremas da direita católica, exatamente quando estava desaparecendo na insignificância na minguante esquerda católica, que durante muito tempo foi o seu lar.” Ver um neoconservador como George Weigel acusar a FSSPX de “catolicismo de estilo self-service” é um exemplo clássico do roto falando do esfarrapado. Havia anos Weigel vinha escolhendo no bufê quente do seu self-service a sua marca pessoal de catolicismo conforme aos princípios neoconservadores, começando com a sua justificação da guerra do Iraque até chegar à sua leitura da encíclica Caritas in Veritatem, do Papa Bento XVI, acerca da doutrina social da Igreja. Quando George Weigel coloca seus mágicos óculos neoconservadores para ler a encíclica papal, alguns trechos aparecem em ouro, isto é, congruentes com o programa neoconservador, enquanto outros trechos aparecem em vermelho, o que significa que eles não o são e podem ser tranquilamente ignorados pelos verdadeiros católicos, isto é, aqueles que seguem o programa conservador tal como articulado por George Weigel. Para gente como essa, o bafafá com a negação do holocausto era sopa no mel, pois possibilitava encerrar indesejadas discussões sobre temas proibidos. Mas em junho de 2010, data de meu encontro com o bispo Williamson, parecia que a questão do holocausto havia sido resolvida. Na primavera de 2010, Williamson foi condenado num tribunal alemão e multado em 180.000 euros, soma depois reduzida a 10.000 e que está hoje sob apelação. O bispo Williamson “superara esta questão,” como dizem os políticos. Estava agora “pronto para tocar a vida.”

Estava mesmo? No auge do circo mediático, Williamson escreveu ao papa e sugeriu ser, como Jonas, lançado ao mar para acalmar as ondas. Esta é uma aproximação razoavelmente exata do que se passou, mas não foi o papa que lançou Sua Excelência ao mar, foi o bispo Fellay que se livrou dele. Richard Williamson é hoje um bispo sem pasta. Além de removê-lo do seminário, na Argentina, o bispo Fellay proibiu Williamson de falar em público, inclusive, provavelmente, de dar entrevistas a gente como eu.

Se havia um pressuposto de minha parte por trás do encontro era que a suspensão das excomunhões e o subsequente bafafá acerca da negação do holocausto haviam mudado a situação. A única prova de que dispunha para ir em frente era o fato de Williamson ter-se candidatado voluntariamente a ser jogado no mar, mas isto parecia uma indicação suficiente de que a situação o fizera mudar. A suspensão das excomunhões certamente haviam mudado a minha atitude para com a FSSPX — passei das acusações do tipo das que lançamos nas peças investigativas que elaboramos na década de 1990, para a intenção de fazer tudo o que fosse preciso para restaurar a plena comunhão. Na verdade, tal desejo nascera muito antes das excomunhões serem suspensas. Quando nos encontramos no seminário da FSSPX em Winona, na década de 1990, eu havia perguntado a Sua Excelência o que eu podia fazer para ajudar a pôr um ponto final no cisma. Sua resposta foi muito simples: “Faça com que Roma revogue o Vaticano II.”

Só isso?” respondi brincando.

Quanto mais falávamos, porém, mais crescia a inquietante sensação de que nada mudara. “Semper idem” (sempre o mesmo) era o lema do Cardeal Ottaviani e a frase sempre pareceu útil ao tratar com os modernistas, mas agora ela começava a aparecer sob uma luz diferente, menos positiva, ou seja, não tanto como a reafirmação da tradição, mas como a versão teológica de Feitiço do Tempo (Groundhog Day), o filme em que Bob Murray faz o papel de um meteorologista de Pittsburgh que se vê na situação de repetir sempre o mesmo dia. A FSSPX afirmara por mais de 20 anos que o problema era doutrinal, especificamente questões doutrinais acerca do Vaticano II, e logo em seguida ao fim das excomunhões persuadira Roma a estabelecer um diálogo sob tais auspícios, mas agora estava claro, como observara o cardeal Kasper, que o diálogo chegara a um impasse.

Isto não é de surpreender, pois a doutrina nunca foi o nó da questão. Na verdade, ao permitir que o diálogo acerca da doutrina se desenvolvesse, Roma comprometera fatalmente a sua própria posição. O problema real é cisma, não doutrina. Heresia é um pecado contra a doutrina, e nas negociações que se seguiram à suspensão das excomunhões, a FSSPX estava empenhada numa tentativa de virar a mesa e convencer Roma de ser culpada de heresia. Antes de estabelecer um diálogo com a FSSPX , teria sido bom que Roma ticesse assistido à entrevista do Bispo Fellay no YouTube. Nela, Fellay vai direto ao ponto, quando diz: “A Igreja está com câncer. Não queremos abraçar a Igreja porque neste caso também pegaremos câncer.”

Se alguém tiver alguma dúvida acerca de a FSSPX estar em cisma, aquela entrevista deve tranquilizá-lo. Como observou Santo Agostinho em ambos os seus tratados sobre o Batismo e os Donatistas, o cisma nada tem a ver com doutrina. O cisma é um pecado contra a caridade. Implica romper a comunhão por medo de contaminação — o que é exatamente como o bispo Fellay articulou a questão na sua entrevista do YouTube. O bispo Williamson tem a sua própria entrevista no YouTube, filmada em janeiro de 2010, em que ele diz essencialmente a mesma coisa. A única diferença é que em sua entrevista Williamson afirma que a Igreja tem lepra. Em termos médicos, a analogia é mais correta, pois a lepra é contagiosa, mas a ideia é essencialmente a mesma. A FSSPX rompeu a comunhão com a Igreja quando o arcebispo Lefebvre consagrou Williamson, Fellay e dois outros bispos. A recusa da comunhão por medo de contaminação é, como sabem todos os que leram Santo Agostinho, a expressão clássica do cisma, mas evidentemente ninguém em Roma observou isso ao se iniciarem as negociações com a FSSPX , pois em vez de tratar da questão pertinente, Roma embarcou no equivalente teológico da Missão Impossível, ou seja, numa discussão teológica dos documentos do Vaticano II com gente que estava usando a doutrina como pretexto para falar de sua própria falta de caridade.

O que Roma deixou passar neste caso foi a necessidade psicológica da parte da FSSPX de desviar as negociações para uma discussão doutrinal. Tal necessidade se baseia mais na própria culpa do que em qualquer coisa que esteja nos documentos do Vaticano II. A FSSPX cometeu um pecado contra a caridade quando o arcebispo Lefebvre, alegando a existência de um estado de emergência na Igreja, rompeu a comunhão, consagrando os quatro bispos. A justificação pelo rompimento da comunhão é em última instâqncia irrelevante, pois a Igreja está sempre de algum modo em estado de emergência, pois está sempre à mercê de homens maus e venais que se elevam a posições de poder nas instituições humanas, mas nenhum estado de emergência (real ou imaginário) justifica a quebra da comunhão. O escândalo dos abusos sexuais dos padres irlandeses é um exemplo disso, e foi o convite para discutir esta crise à luz da tradição que me levou inicialmente ao quartel-general da FSSPX em Wimbledon.

A crise sacerdotal na Irlanda


Em carta pastoral à Igreja da Irlanda datada de 19 de março de 2010, o Papa Bento XIV afirmou que para recuperar-se do ferimento provocado pelo grande número de abusos da parte de padres irlandeses a jovens entregues aos seus cuidados, a Igreja da Irlanda devia primeiro reconhecer perante Deus e perante os homens os graves pecados cometidos contra crianças indefesas. Tal reconhecimento, acompanhado de sincero pesar pelo dano causado a tais vítimas e suas famílias, devia levar a um sério empenho na proteção das crianças contra crimes semelhantes no futuro.

O papa fundamentou a carta em boa medida nas descobertas do relatório Murphy, publicado em 26 de novembro de 2009, que revelou que “o abuso de crianças por parte de eclesiásticos estava bastante disseminado durante todo o período em questão.”

Mais crucial para a correta compreensão da crise dos abusos sexuais na Irlanda é a compreensão do “período em questão.” A maioria dos casos de abuso que a Igreja vem hoje enfrentando ocorreram num período cujo epicentro se situa aproximadamente de 30 a 40 anos atrás. Para entender a crise naquela época, precisamos entender o que os alemães chamam de Zeitgeist, ou o espírito dos tempos, sendo esses tempos sobretudo a década de 1970, quando, cerca de dez anos após o encerramento do Concílio Vaticano II, a Igreja vivia a agonia de sua implementação.

O papa chama a atenção para tal período em sua carta:

Também significativa durante esse período era a tendência, igualmente da parte de padres e religiosos, de adotarem maneiras de pensar e de avaliar as realidades seculares sem uma referência suficiente ao Evangelho. O programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II era por vezes mal interpretado e, de fato, à luz das profundas mudanças sociais então em andamento, era muito difícil saber qual a melhor maneira de implementá-lo.

Uma das principais características da época, segundo o papa, era

uma bem intencionada mas equivocada tendência de evitar abordagens penais de situações canonicamente irregulares. É neste contexto geral que devemos tentar compreender o angustiante problema do abuso sexual de crianças, que contribuiu em não pequena medida para o enfraquecimento da fé e da perda de respeito pela Igreja e pelos seus ensinamentos.

O Relatório Murphy ressalta que a Igreja não aplicou os remédios que o Direito Canônico indica em casos de abuso sexual. Pelo contrário, a diocese de Dublin deixou de lado o processo penal do direito canônico em favor de uma abordagem puramente “pastoral”, que foi, segundo a Comissão, completamente inefetiva como meio de controlar os abusos sexuais por parte do clero.” Durante as investigações, a Comissão veio a saber que “Em meados da década de 1970 não havia a percepção pública, profissional ou governamental, quer na Irlanda, quer internacionalmente, de que o abuso sexual de crianças constituísse um problema social ou um grande risco para as crianças.”

Nas palavras de um comentador:

As páginas do Relatório Murphy estão repletas de exemplos de incúria, incompetência e covardia moral. Nos útimos quinze a vinte anos, eles têm se descabelado, tentando achar uma solução para um problema aparentemente fora de controle. Muitíssimas vezes, tal resposta foi, na melhor das hipóteses, inadequada. Uma linha do Relatório que soa especialmente verdadeira refere-se a um padre que tinha sobre o arcebispo Connell a impressão de “estar diante de alguém que realmente se preocupava com a vítima, mas não tinha 'a mínima ideia' sobre como lidar com a realidade do problema.” Muitos dos outros bispos davam a mesma impressão.

O Papa Bento foi duro na sua crítica a os padres que traíram a confiança daqueles a quem deviam servir e dos bispos que foram negligentes no exercício da vigilância necessária, mas o Parágrafo 4 de sua carta pastoral indica que outras forças também estavam em ação.

Nas últimas décadas, a Igreja de nosso país teve de enfrentar novos e sérios desafios à fé, provocados pela rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa. Ocorreu uma mudança social acelerada, que não raro afetou negativamente a tradicional adesão do povo ao ensinamento e aos valores católicos. Com demasiada frequência, foram negligenciadas as práticas sacramentais e devocionais que sustentam a fé e permitem que ela cresça, como a confissão frequente, a oração diária e os retiros anuais. Só examinando com cuidado os muitos elementos que deram origem à crise atual pode-se fazer um diagnóstico claro de suas causas e encontrar remédios eficientes.

Ao comentar a carta do papa num simpósio em Chiesa.com,(Chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1342641>eng=y), Sandro Magistro afirmou que “Bento XVI deu aos católicos da Irlanda uma ordem nunca antes dada por um papa da era moderna a toda uma Igreja nacional . . . Disse-lhes não só que levassem os culpados aos tribunais canônicos e civis, mas que ela mesma se colocasse coletivamente em estado de penitência e purificação. . . . de forma pública, ante os olhos de todos, mesmo dos mais implacáveis e sarcásticos de seus adversários,” mas o tema central do assunto era, mais uma vez, o Zeitgeist. Como indicava o título do artigo de Magister no La Repubblica, “Gênese do Crime: a Revolução dos anos 1960,” a causa do crime foi a revolução sexual da década de 60, acontecimento que foi uma verdadeira revolução e provocou a sexualização de culturas católicas tradicionais, o que trouxe consigo a sexualização do clero também.

Participando do mesmo simpósio, o Cardeal Angelo Bagnasco via “estratégias de descrédito generalizados” por trás dos noticiários, bem como uma dose não pequena de hipocrisia. Os meios de comunicação de massa que pediam a renúncia do papa eram os mesmos que haviam passado décadas solapando a moralidade sexual:

Na realidade, todos nós devemos questionar-nos, sem mais álibis, acerca da cultura que reina em nosso tempo, paparicada e inconteste, e tende progressivamente a rasgar o tecido conectivo da sociedade como um todo, talvez até ridicularizando aqueles que tentam resistir e opor-se a ela: ou seja, a atitude daqueles que cultivam a absoluta autonomia em relação aos critérios de julgamento moral e apresentam como bons e atraentes comportamentos calcados em desejos individuais e até em instintos desenfreados. Mas o exagero de sexualidade separado de sua significação antropológica, o hedonismo onipresente e um relativismo que não admite limites ou exceções são muito nocivos, porque capciosos e por vezes tão disseminados que escapam à percepção.

O cardeal Ruini chamou a crise irlandesa “parte de uma estratégia já em andamento há séculos” e prosseguiu dizendo que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche “elaborara” tal estratégia “com seu faro pelo detalhe.”

De acordo com Nietzsche, o ataque decisivo ao cristianismo não pode ser desfechado no nível da verdade, mas no da ética cristã, que ele via como a inimiga da alegria de viver. E assim eu gostaria de perguntar a esses que condenam publicamente os escândalos de pedofilia, principalmente quando envolvem a Igreja católica, por vezes pondo em questão o celibato sacerdotal: não seria mais honesto e realista reconhecer que certamente estes e outros desvios relacionados com a sexualidade acompanham toda a história da raça humana, mas também que em nossa época tais desvios são também estimulados pela tão decantada ‘liberação sexual'?

Quando a exaltação da sexualidade toma conta de todas as partes da vida e quando a autonomia em relação a qualquer critério moral é reivindicada para o instinto sexual, torna-se difícil explicar que certos abusos devam ser absolutamente condenados. Na realidade, a sexualidade humana desde o princípio não é simplesmente instintiva, não é a mesma que a de outros animais. É, como todo o homem, uma sexualidade ‘misturada’ com a razão e a moralidade, que só pode ser vivida humanamente, e trazer verdadeiramente a felicidade se vivida desta maneira.”

Mais uma vez, a chave para se entender a crise irlandesa de abusos é entender “o período em questão,” ou seja, o período que se seguiu à revolução sexual da década de 60.

O professor de sociologia Massimo Introvigne, presidente do CESNUR, o Centro para os Estudos sobre Novas Religiões, afirmou que o ataque à Igreja começou para valer durante “o que os ingleses e os americanos chamam de ‘the ‘60s,’ e os italianos, concentrando-se no emblemático ano de 1968 [chamam] ‘il Sessantotto.’” Esta época, segundo o professor Introvigne, “cada vez mais se revela como um tempo de profunda perturbação dos costumes, com efeitos cruciais e persistentes sobre a religião.”

Em sua carta, Bento XVI mostra ter consciência do fato de que houve nos anos 1960 uma autêntica revolução — não menos importante que a Reforma Protestante ou a Revolução Francesa — de ritmo “acelerado”, que desferiu um tremendo golpe na “adesão tradicional ao ensinamento e aos valores católicos.”

Na Igreja Católica, não houve de imediato uma consciência suficiente da magnitude dessa revolução. Neste clima, certamente nem todos os padres que eram insuficientemente formados ou mais infectados pelo clima que se seguiu à década de 60 - e nem mesmo uma parte significativa deles - se tornaram pedófilos. Mas o estudo da revolução da década de 1960 e do ano de 1968 é crucial para se entender o que aconteceu em seguida, inclusive a pedofilia. E para se encontrarem remédios reais. Se essa revolução, ao contrário das outras anteriores, é moral e espiritual e atinge a interioridade do homem, os remédios só podem vir, em última análise, da restauração da moralidade da vida espiritual e da verdade abrangente acerca da pessoa humana.

O que este comentário e outros semelhantes tornam claro é que falar acerca da década de 60 e compreender a década de 60 são duas coisas diferentes. O que todas as críticas têm em comum é uma compreensão inadequada do que aconteceu naquela década e, o que é mais importante, do que aconteceu em seguida à revolução sexual, um período que coincidiu no tempo com a implementação do Concílio Vaticano Segundo.

O cardeal Ruini menciona Nietzsche, que por certo tem culpa no cartório, mas se Sua Eminência estava interessada em falar de uma campanha revolucionária, de “uma estratégia já em andamento há séculos,” e da sexualização da cultura com propósitos políticos, teria sido melhor ter começado com o Marquês de Sade.

Analogamente, afirma o professor Introvigne

que um único fator não pode explicar uma revolução desta magnitude. O boomeconômico e o feminismo desempenham seu papel, mas também aspectos mais estritamente culturais, tanto fora das igrejas e das comunidades cristãs (o encontro entre a psicoanálise e o marxismo) como dentro delas (as ‘novas teologias’).

Mas não menciona Wilhelm Reich, o homem que criou o termo Revolução Sexual e também combinou psicanálise e marxismo para criar uma arma especialmente apontada para a Igreja Católica, e que ainda mais especificamente promoveu a corrupção sexual do clero como a melhor maneira de reduzir o poder político da Igreja.

Reich era um judeu da Galícia - a mais oriental das províncias do império Austro-Húngaro - ao mesmo tempo freudiano e marxista. Nove anos depois de morrer, tornou-se o herói da revolução de 68 em Paris. Dois anos depois, apareceu na capa do New York TimesMagazine.

Quando Reich foi redescoberto pela Nova Esquerda em 1969, já havia morrido havia dez anos, mas este fato era irrelevante, pois, de qualquer forma, o Reich que a os revolucionários culturais estavam interessados em promover havia parado de escrever em 1933. No dia 4 de janeiro de 1971, Christopher Lehmann-Haupt escreveu uma resenha da nova edição da Psicologia de Massa do Fascismo da Farrar Straus, que anunciava, com efeito, que o retorno de Reich começara para valer. “Wilhelm Reich,” proclamou Lehmann-Haupt, “o sexólogo austríaco e inventor do chamado acumulador de energia de orgônio, está de volta.” Reich, segundo a resenha, era o pai da cultura jovem, da revolução sexual e do movimento feminista. O livro de Kate Millett, Sexual Politics, foi escrito sob a influência dele. Além disso, Reich reconciliava melhor Freud com Marx do que Marcuse, especialmente ao expor seu “credo de que o homem sexual é um homem liberado da necessidade de autoridade, religião e casamento.” Ou seja, Reich “faz muito sentido,” pelo menos para alguém simpático ao objetivo da liberação sexual. Lehmann-Haupt, na realidade, se apaixonara tanto pela visão reichiana da liberação sexual, que estava até disposto a reexaminar a teoria da energia do orgônio. “Talvez tenha chegado a hora de reexaminar todo Wilhelm Reich,” concluía.

Quatro meses depois, no dia 18 de abril de 1971, o New York Times voltou a tratar de Reich, desta vez dedicando ao seu pensamento um longo artigo de destaque no revista de domingo. Em “Wilhelm Reich: O Psiquiatra como Revolucionário,” David Elkind descreve como os estudantes communards de Berlim atacaram a polícia com exemplares de capa mole de A Psicologia de Massa do Fascismo. (Terá sido por compaixão ou por frugalidade que evitaram usar exemplares de capa dura?) Reich “está sendo ressuscitado em toda a Europa como um herói/santo por estudantes que exigem reformas sociais,” e agora “muitos jovens americanos” estavam “descobrindo que Reich é bem o seu tipo de revolucionário também.” Isto porque a sua mensagem era mais atraente para a Esquerda Americana, que percebia que podia derrubar o estado pela licança sexual sem a sublimação exigida por Freud ou a revolução política exigida por Marx.

Reich é relevante para a nossa discussão por ser um proponente tanto da sexualidade infantil quanto da subversão sexual do clero. Em A Psicologia de Massa do Fascismo, Reich afirmava ser irrelevante debater a existência de Deus com um seminarista. Se, porém, o seminarista puder ser induzido a se entregar à atividade sexual, a ideia de Deus “vai evaporar-se” de sua mente. Em A Psicologia de Massa do Fascismo, Reich elogiava “o sociólogo legítimo que considera a compreensão psicanalítica da sexualidade infantil como um ato revolucionário altamente significativo” (p. 28). Prossegue dizendo que a Igreja Católica é o principal inimigo da libertação revolucionária:

Com a restrição e a supressão da sexualidade, muda a natureza do sentimento humano; nasce uma religião que nega o sexo e gradualmente desenvolve sua própria organização de política sexual, a igreja com todos os seus predecessores, cujo objetivo não é senão a erradicação dos desejos sexuais do homem e, portanto, do pouco de felicidade que há na terra.

De acordo com Reich: “A inibição sexual impede o adolescente médio de pensar e sentir de maneira racional.” A religião, segundo Reich, nada mais é do que sexualidade inibida:

A experiência clínica demonstra incontestavelmente que os sentimentos religiosos decorrem da sexualidade inibida, que a fonte da excitação mística deve ser procurada na excitação sexual inibida. A inevitável conclusão de tudo isso é que uma consciência sexual clara e uma regulação natural da vida sexual devem condenar ao fracasso toda forma de misticismo; ou seja, que a sexualidade natural é o arqui-inimigo da religião mística. Ao travar um combate antissexual sempre que pode, ao fazer disto o núcleo dos seus dogmas e colocá-lo na linha de frente de sua propaganda de massa, a igreja apenas demonstra a correção desta interpretação.iv

Em outro ponto, afirma Reich que: “Se alguém conseguir livrar-se do medo infantil da masturbação e com isso a genitalidade passar a exigir gratificação, prevalecerão o discernimento intelectual e a gratificação sexual.”v

O primeiro passo para a revolução é a promoção da sexualidade infantil, pois “não podem coexistir a consciência sexual e os sentimentos místicos.” Qualquer revolucionário que considerar a sexualidade como um “problema particular” comete um “grave erro”, pois

a reação política . . . sempre segue duas trilhas ao mesmo tempo: nas políticas econômicas e na “renovação moral.” Até agora, o movimento da liberdade seguia só uma trilha. O que é preciso, portanto, é dominar a questão sexual em escala social, para transformar o lado obscuro da vida pessoal em higiene mental social, para transformar a questão sexual numa parte da campanha total, em vez de nos limitarmos à questão da política populacional.vi

A revolução sexual é, para usar as palavras de Reich, “dinamite social,” mas não pode efetivar seu poder destrutivo se os revolucionários temerem envolver-se em sexualidade infantil, ou como diz Reich: “se este trabalho for executado por revolucionários que compartilham com a igreja da afirmação e da defesa do misticismo moralista, que consideram que a resposta à questão sexual esteja aquém da ‘dignidade da ideologia revolucionária,’ que recusam a masturbação infantil como uma ‘invenção burguesa,’” as coisas não darão certo.

Ou seja, o autêntico revolucionário deve estar disposto a promover a sexualização das crianças. O revolucionário, segundo Reich, deve “despertar. . . um desejo na juventude moderna, um desejo de uma nova filosofia e de conhecimento científico acerca da luta pela saúde sexual, pela consciência e liberdade sexuais . . . O que importa é a juventude! E ela— isto é certo — não é mais acessível a uma ideologia que nega o sexo em escala maciça. Este é o nosso ponto forte.”vii

A ênfase de Reich na promoção da atividade sexual repete-se demais para ser ignorada:

O trabalho revolucionário com as crianças só pode ser, essencialmente, um trabalho de economia sexual. Deixem o espanto de lado e escutem com paciência. Por que é que as crianças em fase pré-púbere podem ser orientadas pela educação sexual da maneira melhor e mais fácil?viii

Esta poderosa arma nunca foi usada na Alemanha. E os encarregados pelas organizações infantis é que resistiam mais fortemente à proposta de transformar o tratamento individual da educação sexual em educação em escala de massa.ix

Se conseguíssemos despertar os interesses sexuais das crianças e adolescentes em escala de massa, a contaminação reacionário teria de enfrentar uma formidável contra-força— e a reação política não poderia fazer nada.x

. . . o mecanismo que torna as massas incapazes de liberdade é a supressão social da sexualidade genital nas criancinhas, adolescentes e adultos.xi

Para deflagrar a revolução, o autêntico revolucionário, segundo Reich, deve promover o sexo com crianças. Deve também promover a sexualização do clero católico, pois a Igreja Católica é o principal obstáculo para a conquista revolucionária da sociedade austríaca:

O caso dos eclesiáticos é especialmente difícil, pois se tornou impossível a convincente continuação de sua profissão, cujas consequências físicas sentiram no próprio corpo. A única opção aberta a muitos deles é trocar o sacerdócio pela pesquisa ou docência religiosas.

Reunidas, a promoção por parte de Reich da sexualidade infantil e da sexualização do clero católico tornou-se o esquema para a subversão da Igreja Católica. A campanha começou logo em seguida ao Concílio Vaticano Segundo, mas chegou ao auge na crise do abuso sexual por parte do clero na primeira década do século XXI. As teorias de Reich foram postas na prática durante a revolução sexual da década de 60, mas levariam décadas até que o seu pleno efeito ficasse evidente.

A esquerda pôs as teorias de Reich na prática durante a década de 60. Num artigo publicado na revista austríaca Die Aula em fevereiro de 2001, de que reproduzimos uma tradução inglesa em Culture Wars de maio deste ano,xii Hans Fingeller explicava como os revolucionários sexuais “usaram crianças como ratos de laboratório na delicada área do desenvolvimento sexual”:

Wilhelm Reich, um esquisito seguidor de Sigmund Freud, propôs certas teses sobre como “liberar” a sexualidade das crianças, que os revolucionários da “Spontis” e da APO [Ausserparliamentarische Opposition] usaram como desculpa para fazer certas experiências com crianças. . . . . Como resultado da absorção das teorias de Reich, a geração de 68 começou a fazer experiências com seus próprios filhos, que agora não eram mais criados em escolas públicas ou religiosas, mas em “centros alternativos de cuidados [day care centers]” em que zelosos camaradas tentavam criar com esse ‘material humano” o “Novo Homem”, não por algum processo biológico, mas pela aplicação deliberada da ideologia marxista na sala de aula.

Em seu livro Linke Lebensluegen: eine Ueberfaellige Rechnung [Mentiras esquerdistas acerca da vida: uma conta vencida há tempos] Klaus Rainer Roehl, que era na época marido da terrorista Ulrike Meinhof, da RAF, dá alguns detalhes sobre as práticas de educação infantil na Kommune 2, especializada na educação de crianças segundo o evangelho de Wilhelm Reich.

O primeiro objetivo dessa “educação” era substituir o apego dos filhos aos pais por um relacionamento com uma “pessoa de relação” e com isso inibir a formação da “fixação familiar autoritária.” Tais atividades incluíam contato pedofílico entre adultos e meninas de cinco anos de idade, cujos pormenores pouparei ao leitor. Pode-se ler a explicação completa no número de Maio de 2001 de Culture Wars.

Daniel Cohn-Bendit é hoje membro do Parlamento Europeu e chefe do Partido Verde na França, mas na década de 60 foi professor num desses centros educativos. Depois que seu companheiro de armas Joschka Fischer foi nomeado ministro das relações exteriores da Alemanha, Cohn-Bendit concedeu uma entrevista a ZDF, o segundo canal de TV da Alemanha, em que lhe perguntaram se ele trabalhara em algum dos centros educativos vermelhos.

Sim, é claro, é claro,” respondeu ele.

O repórter da ZDF então lhe perguntou se publicou o seguinte texto acerca de suas experiências lá: “sempre me acontecia de as crianças abrirem a minha braguilha para me acariciarem.”

Nesse momento, o eloquente parlamentar europeu pareceu um veado assustado com as luzes de um carro que se aproximava.

Depois de muito pigarrear e gaguejar, Cohn-Bendit disse que hoje não recomendaria o que recomendava na época, pois “sabemos muito mais sobre abuso de crianças.”

Em seguida, contradizendo o que escrevera, Cohn-Bendit jurou: “Nunca tive nada que ver com crianças.”

O repórter da ZDF não pareceu convencido: “Tudo soava tão autobiográfico. As descrições são tão pessoais, como se tivesse feito sexo com crianças.”

Cohn-Bendit replicou: “É, mas isso não é verdade. Isso não é verdade. O mesmo também quanto aos pais. . . Não me zango se as pessoas me acusarem disso porque não era segredo. Estava só pensando que você devia olhar para aquilo no contexto daquele tempo e daquela época. Estamos falando de 68. Foi naquela época. . . .

Ao contrário da Igreja católica, que pediu desculpas pelos padres que praticaram atividades sexuais com crianças, a Esquerda em geral e o Partido Verde, seu atual herdeiro, nunca “buscou maneiras de reparar os danos que fizeram às crianças daquela geração, que foram tratados como ratos de laboratório sujeitos às ideias abstrusas do maluco Wilhelm Reich.”

Escreve Klaus Rainer Poehl: “É nesta área específica [a sexualização de crianças] que o seu movimento tem mais coisas pelas quais deve responder. Essas práticas más ou estúpidas criaram as maiores sequelas. Foi aqui que ele causou mais estragos.”

Escrevendo mais ou menos na mesma época que Hans Fingeller, Herbert Rauter afirma que as experiências de Cohn-Bendit não foram “Incidentes Isolados.” Na verdade, em 1985 o Partido Verde, o lar político tanto de Cohn-Bendit quanto de Joschka Fischer, defendia a eliminação das leis que criminalizavam as relações sexuais com crianças, afirmando que elas “impedem o livre desenvolvimento da personalidade.”

No começo de 1985, os verdes propuseram uma legislação que decriminalizaria a sedução de meninas de menos de 16 anos, bem como o contato homossexual com crianças e adolescentes. A razão? “A ameaça de punição inibe as crianças de descobrir sua verdadeira orientação sexual.”

Na convenção estadual reunida em Luedenscheid em março de 1985, os verdes de Nordrhein-Westfalen reivindicaram que a “atividade sexual não-violenta” entre crianças e adultos nunca fosse considerada razão para perseguição criminal. Esta espécie de atividade, ao contrário, “deve ser liberada de todas as restrições que a nossa sociedade impôs a ela.” O fato de que esta resolução tenha sido aprovada pela maioria dos presentes demonstra o fato de que eles consideravam a proibição das relações sexuais entre crianças e adultos uma forma de “opressão social, que coloca aqueles que estão interessados em praticar sexo não-violento com crianças em perigo de ter sua vida inteira destruída de um dia para o outro se ficarem sabendo que tiveram relações que todos nós consideramos agradáveis, produtivas, estimuladoras do crescimento, em suma, positivas para ambas as partes envolvidas. . . . Reivindicamos, portanto, que sejam removidas todas as sanções criminais contra tal atividade sexual.”

Em 1985, os verdes de Baden-Wuerttemberg . . . tentaram amenizar as sanções criminais contra esta forma de atividade sexual. O sexo consensual entre adultos e crianças não devia ser punido.

Também em 1985, em sua plataforma política (Auszuege aus dem Wahlprogram der Alternative Liste Berlin), os verdes reivindicavam que

É inumano aprovar a atividade sexual só para certa faixa etária e sob certas condições. Se os jovens exprimem o desejo de praticar sexo com pessoas da mesma idade ou com gente mais velha de fora da família, ou porque sua homossexualidade não é aceita pelos pais ou porque têm tendências pedofílicas ou por qualquer outra razão, devem dispor da possibilidade de agir de acordo com tais desejos.”

Recapitulemos. Christopher Hitchens, que escreveu um livro em louvor às virtudes do ateísmo e outro que ataca Madre Teresa, tem planos de prender o papa quando ele chegar à Inglaterra em setembro, mas ninguém tem planos para prender Daniel Cohn-Bendit seja quando for. A Igreja jamais tolerou essa espécie de atividade de nenhum modo, maneira ou forma, muito menos da maneira como o Partido Verde o fez, mas ninguém está processando o Partido Verde pelo abuso sexual que ocorria nos centros educativos da década de 60.

Está claro que a Gaudium et Spes estava enganada ao afirmar que a Igreja nada tinha que temer do mundo moderno. A modernidade sempre foi inimiga da Igreja e assim permanece até hoje.

Mas, o que é pior do que as maquinações dos seus inimigos, a Igreja adotou as categorias dos seus opressores em nome do diálogo e com isso se tornou cega para o que estava realmente acontecendo durante esse período crucial da história da Igreja. Com isso, a Igreja ainda está tentando compreender o que aconteceu na década de 60. O professor Introvigne afirma que

Houve. . . um Sessantotto na sociedade e também um Sessantotto na Igreja: 1968 é ele mesmo o ano da repulsa à encíclica “Humanae Vitae” de Paulo VI, uma briga que, segundo o competente e influente estudo do recentemente falecido filósofo americano Ralph McInerny, What Went Wrong with Vatican II?, (O que deu errado com o Vaticano II?) representa um ponto de não retorno na crise do princípio de autoridade na Igreja. . .

Esse livro foi, sob vários aspectos, o resultado dos 15 anos em que Ralph e eu almoçamos juntos no restaurante chinês Great Wall, em South Bend, Indiana. Ralph e eu também participamos juntos do sínodo sobre o Laicato em Roma, no fim da década de 1980. Ralph, que morreu em janeiro, esteve intimamente envolvido na Revolução de 68. Seu romance The Priest (O Padre) mostra-a de uma cadeira da primeira fila. Durante 15 anos Ralph e eu discutimos o estado da Igreja enquanto degustávamos a comida chinesa do Great Wall. O que o professor Introvigne não sabia é que também discutíamos o envolvimento da Universidade de Notre Dame na revolução sexual. O professor Introvigne não podia saber disso porque Ralph suprimiu todas as informações acerca de Notre Dame em seu livro. O resultado foi uma descrição tão truncada quanto seriamente enganadora desse período crucial da história da Igreja. O simpósio de Chiesa.com é mais uma prova de que a Igreja ignora a sua própria história. A Igreja não pode vencer porque não está jogando com um baralho completo.

Faltam no livro de Ralph quaisquer menções ao papel desempenhado por Notre Dame na sexualização da cultura, na sexualização da Igreja Católica ou na sexualização do clero. Essa história não começou em março de 2010. A revolução sexual de 1968 foi parte de uma guerra contra a Igreja que já durava 30 anos nos Estados Unidos.

Menos de uma semana depois de voltar para os Estados Unidos, parecia claro que a crise de abusos sexuais estava longe de ter-se encerrado. Na verdade, ela havia então atingido a Bélgica, onde a polícia local invadiu prédios da Igreja, impediu que bispos deixassem o recinto, apreendeu computadores e arquivos eclesiásticos, e até mesmo abriu buracos no túmulo de dois bispos falecidos.xiii O Vaticano indignou-se com os atos da polícia belga, afirmando que "não há precedentes, nem sequer sob regimes comunistas" para tais atos, mas as desculpas do Vaticano pelos abusos sexuais, somadas com sua falta de entendimento sobre como funcionava a instrumentalização política do desvio sexual, tornaram inevitáveis tais retaliações políticas. A era do diálogo com o mundo moderno que começou com o Concílio acabou ao som das botas nas escadarias e com a polícia batendo à porta da Igreja e numa campanha que tornou aKulturkampf e a opressão comunista comparativamente suaves. As batidas policiais na Bélgica certamente ofereceram a possibilidade de uma nova interpretação de Gaudium et Spes, mas ninguém em Roma estava preparado para enfrentar os desafios desta nova hermenêutica.

A Igreja e seus inimigos


Ao falar com o bispo Williamson, fica claro que a questão doutrinal é primordial para ele, mas isto somente porque ele se recusa a admitir a causa real do problema, a saber, que a FSSPX rompeu a comunhão. Cisma é uma palavra jamais pronunciada nos círculos tradicionais. É só com dificuldade que consigo tocar no assunto em nossa conversa. O bispo Williamson prefere falar sobre o papa, que, segundo ele, ora diz que 2 mais 2 são quatro, ora diz que 2 mais 2 são cinco.

As ideias do papa acerca do Concílio estão decerto ligadas a um Zeitgeist determinado, o Zeitgeist da década de 60. Quando afirma que “estava ficando claro que a Revolução Americana oferecera um modelo de estado moderno diferente daquele teorizado pelas tendências radicais surgidas na segunda fase da Revolução Francesa. . . . Assim, ambos os lados começaram progressivamente a se abrir um ao outro”, o que está realmente dizendo é que se deixou influenciar por John Courtney Murray e, portanto, peloTime Magazine, que era responsável pelo estatuto de celebridade de que gozava Murray, bem como de C.D. Jackson, que era o controle/ligação da CIA com o grupo Time/Life. Estamos falando da promoção generalizada da ilusão autoinduzida de que a Igreja já não tinha inimigos.

Durante a década de 1930, a Igreja tinha inimigos. Quando a Igreja era forte, isto é, quando estava unida, ela vencia as batalhas contra os seus inimigos. Em 1933, a Igreja americana enfrentou os judeus de Hollywood quando o cardeal Dougherty da Philadelphia conclamou ao boicote de todos os cinemas da Warner Brothers da diocese. O sucesso desse boicote levou à instituição do código de produção de Hollywood. Em 1935, a Igreja Católica, sob o comando do monsenhor. John A. Ryan, chefe da National Catholic Welfare Conference, derrotou a tentativa da classe dominante dos WASPs de envolver o governo federal no patrocínio da contracepção. Se você se perguntar o que mudou nos 30 anos entre 1933 e 1963, não foi o ensinamento da Igreja. Por causa do Vaticano II, a Igreja acreditou que não mais tinha inimigos. Na verdade, por causa de um processo mágico chamado diálogo, nossos velhos inimigos transformaram-se em nossos amigos.

Escusado é dizer que não era esse o ensinamento tradicional da Igreja Católica. O ensinamento tradicional da Igreja fora articulado cerca de 1500 anos antes, quando Santo Agostinho escreveu que os “heréticos, os judeus e os pagãos se uniram contra a Unidade.” A perda de inimigos voltou a Igreja contra si mesma. Na falta de inimigos externos, a presença do mal na Igreja tinha de ser atribuída à mesma Igreja. A Igreja, para citar o Bispo Fellay, desenvolveu “câncer.”

Escreveu certa vez Benjamin Franklin que a “Experiência é uma escola cara, mas os idiotas só aprendem nela.” O que a Igreja tinha de aprender na escola cara da experiência nos últimos 45 anos é que nada mudou. Os nossos inimigos ainda são os nossos inimigos. A única coisa que mudou foi a sofisticação de suas táticas.

O que o discurso papal de 2005 à Cúria mostra é que Joseph Ratzinger foi influenciado por uma sofisticada campanha de desinformação orquestrada por Henry Luce, o editor de Time/Life, e seu agente católico, John Courtney Murray. O que ele não mostra é que há falhas nos documentos conciliares. O mesmo vale também para Nostra Aetate e os judeus, que estavam pagando Malachi Martin para agir como agente duplo no concílio. Hoje como ontem, a Igreja continua a digerir os documentos, ou seja, continua a interpretá-los à luz da tradição, que é o que a Igreja sempre fez. O arcebispo Lefebvre aceitou a ideia; mas, como fiquei sabendo durante a nossa conversa, evidentemente o bispo Williamson não pode fazer o mesmo.

Estamos falando dos bastidores de documentos conciliares como Dignitatis Humanae eNostra Aetate, mas não dos documentos em si, que foram examinados pelos bispos de todo o mundo. Tendo assistido a mais de um sínodo em Roma, é fácil ver como um único bispo (ou uma conferência episcopal) pode introduzir um programa político nas deliberações da Igreja, mas não é fácil ver como tal programa possa prevalecer. Segundo a minha experiência, a única coisa sobre a qual os bispos do mundo podiam concordar é o catolicismo. O bispo Williamson afirma haver declarações ambíguas nos documentos do Vaticano II e que tal fato justifica a sua separação. A primeira proposição é inegavelmente verdadeira; a segunda, inegavelmente falsa. ***

Maynooth, Ireland, June 19, 2010

Quatro dias antes do nosso encontro, assisti a uma conferência sobre “Fertilidade, Infertilidade, Gênero,” patrocinada pelo Linacre Centre for Healthcare Ethics de Maynooth, a sede do seminário para padres católicos da Irlanda. Os participantes da conferência são bastante simpáticos, mas avulta por trás da conferência a figura da crise tanto sexual quanto econômica da Irlanda e da Igreja Irlandesa. Um bispo recém-deposto pelo papa por seu tratamento negligente da crise está na plateia. O próprio seminário foi criticado por sua tolerância à homossexualidade em artigos recentes da imprensa irlandesa. A crise dos abusos sexuais era o tema das palestras que eu daria tanto em Dublin quanto em Londres.

Em maio de 1992, assim que a contra-contra-revolução neoconservadora americana havia declarado guerra contra Pat Buchanan, irrompeu o escândalo do bispo Casey de Galway na Irlanda. Segundo o relato de Mary Kenny em Goodbye to Catholic Ireland (Adeus à Irlanda católica):

O bispo Eamonn Casey tivera um caso em 1974 com uma americana divorciada, Annie Murphy, tivera um filho com ela, abandonou-a e sugeriu que a criança fosse dada para adoção; e em seguida, numa tentativa desesperada de esconder a verdade, usara o dinheiro da diocese para pagar o que a mãe lhe pedia.

É errado gerar filhos for a do casamento? É, sim. Mas, mais uma vez, a imprensa parecia decidida a punir a única instituição disposta a defender os padrões morais. Se a ilegitimidade era uma coisa errada, por que os jornais não insistiam para que as crianças nascidas fora do casamento processassem a Associação Nacional de Basquete? Será que alguma instituição produziu, per capita, um número maior de filhos ilegítimos?

Kenny no começo negou a história, mas logo ficou claro que as forças que queriam destruir a Irlanda Católica não deixariam o caso cair no esquecimento.

Durante tais acontecimentos de meados da década de 1990, eu ouviria pessoas dizerem na Irlanda que “as coisas não podem piorar.” E então pioraram. Todas as segundas-feiras de novembro de 1994, os três assuntos principais na RTE, a rede nacional de televisão, eram as repercussões políticas do caso Brendan Smyth, o desmaio e morte de um padre de Dublin numa sauna homossexual, e a condenação de um padre de Galway por molestar sexualmente um rapaz: tudo isto num só noticiário. Nunca mais fiz piadas sobre os papas renascentistas.xiv

Kenny descobriu que

As repetidas ondas de acusações e condenações — quase todos os acusados eram condenados — eram incansáveis, sórdidas e deprimentes. . . .O caso Brendan Smyth não era só sórdido e deprimente: ele derrubou o governo de Albert Reynolds. Era também especialmente chocante, não só porque o culpado era um pedófilo claramente incorrigível, mas porque havia provas de que as autoridades religiosas o haviam acobertado por muitos anos. Em 1968 recebera aconselhamento psiquiátrico por sua compulsão, mas sem nenhuma melhora. . . . No esforço para não “provocar escândalo,” ficou claro que as autoridades da Igreja haviam permitido que um pedófilo desse livre curso à sua mania.

O Partido Trabalhista recusou-se a apoiar o governo e este caiu, para ser substituído pelo Fine Gael, liderado por John Bruton. O Processo de Paz da Irlanda do Norte tivera início em agosto de 1994, quando o IRA declarara um cessar-fogo, e Albert Reynolds fora uma figura fundamental no apoio àquele gesto. O partido do sr. Bruton, tradicionalmente mais hostil ao IRA e aos nacionalistas extremados, assumiria as rédeas. Alguns observadores previram que, sem os serviços de Albert Reynolds, o Processo de Paz iria agora vacilar — tudo por causa do padre pedófilo. . . .dizia-se em Dublin que o colapso jamais teria acontecido se Albert Reynolds ainda fosse Taoiseach. xv

Ou seja, a crise sexual foi usada para erradicar os últimos elementos de cultura católica na Irlanda. O falecido Tom Herron contou como o notoriamente anti-católico Irish Timesfoi o primeiro a dar a notícia, e que isto, por sua vez

levou ao colapso do governo de Albert Reynolds na República da Irlanda e ao enfraquecimento da influência da Igreja sobre a sociedade irlandesa. Nesta mesma época, a professora de direito e feminista, Mary Robinson, foi eleita a primeira mulher presidente da república e ajudou a acabar com os papeis tradicionalmente atribuídos a cada sexo naquele país. Os serviços por ela prestados à secularização de sua terra natal foram retribuídos pelas elites internacionais, ao ser nomeada Alta Comissária da ONU para os Refugiados ao fim do seu mandato. Infelizmente, a carreira da sra. Robinson na cena internacional parece ter-se encerrado quando criticou o tratamento dado por Israel aos refugiados palestinos; ela aprendeu tarde que, por mais progressista que fosse, há palavras que põem rapidamente um ponto final na utilidade que uma pessoa tem para as elites.

O episódio de Brendan Smyth foi, nas palavras de Mary Kenny, “mais um grave episódio no declínio e queda da Igreja Católica irlandesa de hoje.” Mas não demorou muito para ficar claro que o mesmo roteiro estava sendo usado dos dois lados do Atlântico. Tanto na Irlanda quanto nos EUA, os incendiários estavam na folha de pagamentos do corpo de bombeiros. Isto vale não só para o Quarto Estado, que promoveu a sexualização da Irlanda durante os anos que se seguiram ao concílio, e, portanto, em primeiro lugar o clero irlandês, mas também para o sistema de psicologia e aconselhamento. Depois de criar a crise, solapando a moral do clero, o sistema de psicologia/aconselhamento lucrou com os acordos, oferecendo terapia às vítimas. A ironia não passou despercebida a Mary Kenny:

Um milhão de libras foram imediatamente gastos numa linha telefônica de apoio e aconselhamento depois que foram reveladas as vítimas de abuso das escolas industriais mencionadas no livro Suffer the Little Children. A ironia da coisa é que a Igreja Católica estava se servindo das mesmas técnicas terapêuticas que, 50 anos antes, tanto condenara nas obras de Freud.

Em 1995, a Irlanda foi abalada pelas revelações acerca da vida do padre Michael Cleary, que morrera de câncer em 1993. Segundo Kenny, Cleary

fora um dos padres mais conhecidos e populares de Dublin. Lá pela década de 1960, fora saudado como o que havia de melhor em termos de jovens padres modernizantes: informado e descontraído, acessível aos jovens, disposto a tocar um violão e cantar uma canção pop e, ao mesmo tempo, de convicções morais fortes e de profunda consciência social.

Ao contrário do clero homossexual, em quem se podia confiar como idiotas úteis monomaníacos, Cleary cometeu o erro de ser ao mesmo tempo heterossexual e contra o aborto. Quando a mulher com quem tivera dois filhos publicou um sombrio memorial após sua morte – “Minha vida secreta como mulher de padre durante 27 anos” foi a espetacular manchete de primeira página do Sunday World, um tablóide de Dublin — a Igreja mais uma vez pagou o pato. Mais uma vez, a culpa era do celibato, e doravante a ordem moral proposta pela Igreja devia tornar-se suspeita pelo simples fato de ser defendida pela Igreja. “Ao diabo com as orações,” escreveu Mary Ellen Synon no Sunday Independent.

As feministas, então, prontificaram-se a ser carrascos voluntários em prol do estado terapêutico. Nell McCafferty, uma radical de Derry e feminista de fama nacional, foi mais veemente e mais explícita do que sua colega do Sunday Independent. McCafferty escreveu que os padres católicos. . . haviam perdido todas as credenciais para falar sobre moral sexual.

A próxima vez que eles abrirem a boca para falarem de amor, sexo, anticoncepcionais, aborto, homossexualidade, prazer — sobre qualquer coisa que se passe consensualmente entre adultos saudáveis — devemos fazer com que engulam publicamente suas palavras. . . . Que eles se calem enquanto as pessoas e suas famílias se recuperam e obtêm um gostoso e amoroso prazer sexual em suas vidas. Enquanto isso, tomem cuidado com o padre local. Ele é um perigo para a sua saúde mental, física e sexual. Nunca deixe uma criança com um deles. Nunca.

Tanto na Irlanda como nos EUA, as feministas funcionaram como a tropa de choque da nova ordem mundial, ao afirmarem que a Igreja não tinha autoridade para falar de questões sexuais. Isso logo foi ampliado para abranger todos os aspectos da moralidade, que, é claro, incluíam qualquer condenação da avareza, do roubo e da pilhagem que caracterizam o capitalismo, à espreita para preencher o vácuo moral que as feministas haviam acabado de criar, ao solaparem a autoridade da Igreja Católica.

O denominador comum compartilhado tanto pela apropriação das instituições católicas por parte dos neoconservadores nos EUA e pela crise irlandesa dos padres pedófilos é o Capitalismo. Como diz Mary Kenny:

O capitalismo de mercado, que é essencial para o boom do tigre céltico, depende de escolhas individuais de estilo de vida, iniciativa, tolerância da diversidade. Também depende de as pessoas valorizarem, e não rejeitarem, o ganho material. O “autoritarismo” da Igreja Católica, com sua forte tradição orientacional e seu conceito de ortodoxia, é anátema para o mercado. O individualismo é essencial. Aqueles que estudaram o seu Max Weber (A Ética de Trabalho Protestante e o Nascimento do Capitalismo) diriam que não é coincidência que o catolicismo tenha recuado quando o capitalismo triunfou: diriam eles que era necessário que o catolicismo recuasse para que o capitalismo triunfasse. A mentalidade protestante, segundo a qual nós fazemos as nossas próprias opções para a salvação, evitando qualquer forma de “sacerdotalidade,” é uma precondição cultural ao capitalismo de livre-mercado. Se ainda houvesse algum trotskista adepto das teorias conspiratórias com menos de 60 anos, poderia até suspeitar da existência de um complô capitalista para desacreditar os padres e livrar a Irlanda do capitalismo de mercado.xvi

Dez anos depois, enquanto os relatos de abusos sexuais continuavam a vir á tona em grandes quantidades, o Pravda concordava com Kenny. A agora já mundial crise de abusos sexuais na Igreja

tem conotações ideológicas e segue um programa político que procura desconstruir a sociedade tradicional e todas as suas instituições seculares e impor uma Nova Ordem Mundial ao gosto dos sinistros interesses da oligarquia internacional, os mesmos que manipulam os mercados financeiros e por intermédio deles controlam em ampla medida a economia global. Referimo-nos aos casos de pedofilia dentro da Igreja católica recentemente publicados pelas agências internacionais de notícias.

De fato, os recentes relatos de pedofilia envolvendo padres [não] têm o perfil de informação exigido pela ética jornalística, seja qual for a sua gravidade moral. Tais histórias levantam suspeitas sobre sua "validade" mesmo entre não-católicos como nós. Embora discordemos da doutrina da Igreja Católica em alguns pontos, reconhecemos a importância do seu papel em nossa história, na defesa dos valores éticos que moldam a nossa cultura judeu-cristã e o seu mérito social na defesa daqueles que têm sido vítimas da usura e da avidez da oligarquia internacional, que está, afinal, ainda mais interessada em destruir o catolicismo e a religião em geral, por constituírem um sério obstáculo à obtenção do seu objetivo, que consiste em reduzir a humanidade ao estatuto de escravos robôs.
O Pravda mencionou o caso do padre Lawrence Murphy como um caso particularmente notável de caça às bruxas inspirado pela mídia:

A fúria do lobby secular anticlerical chega ao ponto de ressuscitar velhos casos como o do padre Lawrence Murphy, dos idos de 1975, para atingir o atual Papa e com ele a própria Igreja Católica Romana. No dia 25 de março deste ano, o prestigioso New York Times publicou um artigo que sabidamente acusava Bento XVI de dar cobertura ao padre de Milwaukee em 1995, quando o Papa ainda era cardeal e responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé. Deve haver um ódio muito profundo do catolicismo por trás disso tudo, para que tornem a levantar o problema 35 anos depois...

O Pravda acusa o New York Times de desencadear “uma campanha de difamação . . . contra a hierarquia católica mundial” que vem sendo conduzida para proveito de “fundações filantrópicas como a família Rockefeller” cujos “interesses financeiros estão ligados a um amplo leque de setores econômicos, que vão de bancos, petróleo, indústrias farmacêutica e militar, etc., até mídia áudio-visual, inclusive a "mídia", que claramente segue um programa ditado pela Elite Global a que pertence.

Afirma Kenny que o surgimento do capitalismo significou o declínio da Igreja. De fato, alega ela que o capitalismo só poderia florescer na Irlanda se a Igreja fosse desacreditada. As campanhas de publicidade por uma Irlanda capitalista e contra uma Irlanda católica eram, na realidade, duas faces da mesma moeda. Por volta do ano 2000, Mammon havia substituído a Igreja católica como princípio organizador da sociedade irlandesa:

No ano 2000, uma pesquisa especial do Sunday Times acerca dos irlandeses de trinta anos de idade afirmava que para os jovens irlandeses “o dinheiro é a nova religião e eles fazem fila para render homenagem à grana. Deus serve de segundo violino para Bill Gates . . .e pecado é esquecer-se de aproveitar boas oportunidades de lucro. Esta geração está mais disposta a prestar culto numa bolsa de valores do que numa catedral, a procurar um conselheiro sobre pensões do que um confessor.”xvii

A estreia no ano 2000 da versão para cinema do livro Angela’s Ashes (As cinzas de Ângela) de Frank McCort era parte desta campanha para desacreditar a Igreja Católica na Irlanda e abrir caminho para um capitalismo irrestrito. Kenny tem a sensação de que
Alan Parker poderia ter chamado o filme de Como todo o povo irlandês é absolutamente horrível. Pois é difícil achar alguém em toda a história da Irlanda provinciana das décadas de 1930 e 40 com um mínimo de humanidade.

Tudo na Limerick de Angela’s Ashes é brutal sobretudo com as crianças:

Nem é preciso dizer que a Igreja Católica é sarcástica, cruel, desdenhosa e exploradora, e a caridade, a Sociedade de São Vicente de Paula, é representada pelos personagens mais particularmente odiosos, que escarnecem das pobres mulheres antes de ajudá-las.

A Igreja Católica é acusada até de estar envolvida em agiotagem.

Há um agiota repelente que explora os pobres de Limerick, e embora por motivos históricos totalmente compreensíveis os agiotas da Irlanda fossem tradicionalmente judeus, hoje há um entendimento dentro da mídia irlandesa de que só se tem permissão para ser maldoso com os católicos; assim, o agiota da história tem de ser transformado numa vingativa raposa católica, a que não faltam imagens da Virgem Maria espalhadas pela extorsiva contabilidade.xviii

Os judeus foram deixados de fora da história de agiotagem na Irlanda de McCourt/Parker porque o objetivo de Angela’s Ashes era desacreditar a “Irlanda Católica.” Segundo Kenny, a crise de abuso sexual foi a prova de que “o filme Angela’s Ashes estava certo, afinal: a Irlanda católica havia sido uma sociedade horrorosa, em que predominavam as pessoas horrendas, uma sociedade em que o rigor levara à desumanidade.”

Mary Kenny escreveu seu livro em 2000, no auge do boom econômico da Irlanda, conhecido como o Tigre Céltico. No momento em que cheguei á Irlanda, dez anos depois, o Tigre Céltico morrera por seus próprios deploráveis excessos. Quando cheguei, a dívida irlandesa estava em 1275 % do PIB, cerca de dez vezes maior do que a dívida da Grécia, e no entanto ninguém falava da Irlanda.

As pessoas que assistiram à minha palestra em Dublin dificilmente podiam ser consideradas uma amostra representativa do povo irlandês, mas era difícil deixar de fazer generalizações a partir de sua situação. A maioria dos homens estava desempregada e vivia de uma mistura de auxílio previdenciário e de cultura de subsistência. A Irlanda tem uma população de 4 milhões de almas. Desses 4 milhões, 1,8 milhões têm empregos remunerados e 500.000 recebem auxílio do governo. Dizer adeus à Irlanda católica significou dizer olá ao mesmo lamentável capitalismo que mais de um século atrás levou meu avô de sua fazenda perto de Cork à Philadelphia.

A conferência de Maynooth, patrocinada pelo Linacre Centre, teve um nível social mais elevado do que a palestra. A conferência sobre bioética do Linacre Centre em Maynooth tinha o mesmo ar das conferências da Human Life International do tipo daquelas a que assisti 20 ou 25 anos atrás. Demorou-se nos arcanos pormenores de vários tipos de engenharia genética, mas foi sumária quanto aos elos culturais que uniam essas técnicas num mesmo tecido patológico explicável. O Linacre Centre travou um valoroso combate de retaguarda contra a Cultura da Morte na Inglaterra, que tem um dos mais avançados estabelecimentos de engenharia genética do mundo. A Inglaterra estava profundamente envolvida com a fertilização in vitro quando o resto do mundo, inclusive os Estados Unidos, mal sabia do que se tratava. O Linacre Centre publicou um brilhante livrinho sobre as consequências dessa violação da natureza, chamado Who Am I?(Quem sou eu?) O livro rastreava a miséria de crianças que haviam sido geradas por inseminação de doador e cresceram com a estranha sensação de que as coisas não eram como pareciam ser. Esta sensação de insegurança biológica é algo que não deveria existir no admirável mundo novo da tecnologia genética (A única resposta que as crianças recebiam quando reclamavam de viver sem um pai biológico era que deveriam ser gratas por estarem vivas.)

E no entanto, aqui como alhures, a Igreja se encontra em situação desvantajosa por sua submissão a uma cultura que despreza tudo o que a Igreja representa. Julguei que faltava nas palestras qualquer compreensão da deliberada instrumentalização do desvio que unia todas e cada uma das patologias em discussão. Para esclarecer a minha posição durante a sessão de perguntas e respostas que se seguiu às palestras sobre ética sexual (de Alexander Pruss, Luke Gormally e Dr. Philip Sutton), descrevi o colapso da aliança entre negros e judeus e a ascensão dos homossexuais como a vanguarda da revolução, iniciada com os tumultos de Stonewall em 1969. Ninguém fez objeções aos meus comentários no momento, mais mais tarde muita gente se queixou em particular comigo sobre eles.

Era um cenário deprimentemente semelhante ao do modo como estava sendo tratado a crise de abusos sexuais por parte de padres. Assim que se desce a detalhes acerca das circunstâncias históricas e das dramatis personae envolvidas numa determinada crise, alguém tenta encerrar a discussão. Aquilo me fez lembrar a reação do cardeal Bernard Law ao meu artigo sobre a morte de Niels Rasmussen, publicado em Fidelity em janeiro de 1988 (cf. E. Michael Jones, Is Notre Dame Still Catholic Fidelity Press, 2009).Rasmussen, um dominicano dinamarquês que era chefe do programa de liturgia em Notre Dame, foi encontrado morto a tiros no porão de sua casa, rodeado por chicotes e correntes, pornografia homossexual e armas automáticas, uma das quais o matou. Depois que lhe apresentei uma cópia do artigo, o cardeal Law perguntou: “Para que serve isso?” Talvez Sua Eminência agora saiba para que servia o artigo. Em poucos anos, o cardeal Law seria afastado do cargo por não querer saber das más notícias acerca da corrupção sexual em meio ao clero.

O mais famoso exemplo de engenharia sexual do clero católico é o uso feito por Carl Rogers do Treinamento de Sensibilidade para destruir o ramo de Los Angeles das freiras do Imaculado Coração. Demos em primeira mão esta história 25 anos atrás, ao publicarmos um artigo de William Coulson, assistente de Rogers, que descrevia em pormenor o que Rogers fizera com as freiras. Se você estiver interessado na história toda, ela é contada em meu livro Libido Dominandi: Sexual Liberation and Political Control (Libido Dominandi: Liberação sexual e controle político).

Quatro anos antes de Carl Rogers começar a aplicar o treinamento de sensibilidade às freiras do Coração Imaculado, em Los Angeles, Abraham Maslow já fazia um trabalho semelhante em outro grupo de freiras do outro lado do país. No dia 17 de abril de 1962, Maslow deu uma palestra a um grupo de freiras no Sacred Heart College, em Massachusetts. Mais tarde ele anotou em seu diário que sua palestra for muito “bem-sucedida”, mas que achou perturbador esse fato. “Elas não deviam aplaudir-me,” prosseguiu ele, “deviam atacar-me. Se tivessem plena consciência do que eu estava fazendo, elas teriam [atacado].”E por que deveriam tê-lo atacado?

Maslow tinha consciência de que os grupos de encontro eram venenosos para os católicos em geral e em especial para católicos religiosos. Quem quer que promovesse grupos de encontro para católicos estava ipso facto provocando o fim deles como católicos, mesmo se fizesse isso em nome da liberação e com ela como intenção. Para o judeu ou protestante liberais, a freira é um caso paradigmático de alguém que precise de “liberação” e no contexto da vida religiosa católica e dos votos em que ela se baseia, liberação só podia significar aniquilação. No dia 25 de fevereiro de 1967, Maslow escreveu em seu diário, “Talvez idiotas precisem de regras, dogmas, cerimônias, etc.” Mandou em seguida encomendar um livro intitulado Life among the Lowbrows (A vida entre os simplórios) na biblioteca de Brandeis. Talvez tivesse encomendado o livro porque seu autor nele observasse que “os clientes débeis mentais se comportam muito melhor e se sentem melhor sendo católicos e seguindo todas as regras.” Uma vez que as freiras não eram débeis mentais, isto significava que levar “autoatualização” a elas significava destruir o compromisso delas com seus votos e com a Igreja católica. Talvez seja por isso que Maslow sentiu que elas não deviam ter aplaudido a sua palestra em 1962. Maslow, que passara certo tempo nos quartéis generais dos National Training Laboratories em Bethel, Maine, onde os grupos de encontro, subsidiados pelo Centro de Pesquisa Naval, haviam sido criados; eles sabiam que eles eram patrocinados como uma forma de guerra psicológica, e tinha uma vaga ideia do efeito que teriam sobre as freiras, mas caberia ao seu colega Carl Rogers fazer o experimento para valer.

Acho que o que estou tentando dizer aqui,” escreveu Maslow em seu diário em 1965, o mesmo ano em que Carl Rogers começou a fazer circular seu artigo acerca da psicologia de encontros de pequenos grupos de freiras do ICM e mais ou menos na época em que as freiras começaram a deixar o convento, “é que estes relacionamentos terapêuticos interpessoais de promoção de todo tipo de crescimento, que se baseiam na intimidade, na sinceridade, na abertura de si mesmo, em tornar-se sensivelmente consciente de si mesmo — e portanto da responsabilidade de dar feedback à impressão que se tem dos outros, etc.— que estes são dispositivos profundamente revolucionários, no sentido estrito da palavra — ou seja, capazes de mudar toda a direção de uma sociedade para uma direção preferível. Aliás, eles podem ser revolucionários em outro sentido, se algo deste tipo for feito em ampla escala. Acho que numa década toda a cultura e tudo o que há nela mudariam.xix

Num artigo publicado em Culture Wars em 2004, Patrick Guinan, M.D. descreveu os efeitos devastadores que a o emprego sistemático dessas técnicas revolucionárias teriam na vida religiosa americana. Estamos falando aqui do abandono completo da prática ascética por parte do clero, ou, como diz Guinan:

O que mudou entre a primeira e a segunda metades do século XX não foram as políticas conciliatórias em relação aos abusos sexuais e o segredo a qualquer custo — estes permaneceram o tempo inteiro como uma constante — nem temos provas cabais de que os traços de personalidade dos seminaristas ou padres tenham mudado de de algum modo fundamental que pudesse dar conta da natureza e da magnitude da crise — pelo menos nos seus estágios iniciais.

A mudança essencial ao longo do século XX foi uma mudança de finalidade ou de adesão – deixar de lado a disciplina ascética, desdenhar a tradição religiosa e adotar a mentalidade terapêutica, a crença popular de que a realização da pessoa humana brota do desejo emocional na busca de autodefinição ou autorrealização, sem relação com uma verdade filosófica, religiosa ou moral objetiva. Além disso, a mentalidade terapêutica vê o pecado como um problema social e desestimula a lealdade à autoridade religiosa; é profundamente antiascética.

A adesão à mentalidade terapêutica expulsou hábitos e comportamentos ascéticos, e agora controla as atitudes do clero, assim como teve sob seu domínio materialista as sociedades ocidentais por cerca de um século. Especialistas em saúde mental e educadores, como os principais fornecedores da mentalidade terapêutica, pouco sabem sobre a vida espiritual e ignoram a disciplina ascética. No entanto, em nome da ciência e como os principais representantes da elite educada, defenderam a liberalização dos padrões sexuais antes do escândalo sexual na Igreja, e em seguida tentaram aconselhar os bispos e tratar dos padres problemáticos quando a crise tomou forma. Os bispos, que têm a supervisão dos padres paroquianos e dos seminários e que têm estado no centro da administração da crise, não falam muito, se é que alguma vez o fazem, sobre disciplina ascética. Os padres dão poucos sinais de conhecerem a disciplina ascética ou por ela se interessarem. Mas a maioria do clero parece versada na linguagem da mentalidade terapêutica. Como era previsível, quando o maremoto de sexualidade pagã começou a vencer as defesas naturais do clero nas décadas de 1950 e 1960, aqueles que não dispunham da âncora espiritual da disciplina ascética foram deixados à deriva – tanto os perpetradores quanto seus supervisores. Quando o maremoto inicial amainou, as ovas da mentalidade terapêutica permaneceram em poças de água salgada.

O homem que introduziu tais ideias na Igreja e, portanto, o maior responsável pela corrupção sexual do clero americano foi o psicólogo e ex-sacerdote de Maryknoll, Eugene Kennedy. Em 1972, o padre Kennedy foi contratado pelos bispos católicos dos Estados Unidos para fazer uma pesquisa sobre os padres americanos. Kennedy era discípulo de Erik Erikson, também conhecido como Erik Salomonsen, Erik Homburger, um psiquiatra judeu que, como Wilhelm Reich, sofrera profundamente a influência dos escritos de Sigmund Freud. Ocupava um lugar central no pensamento de ambos os homens a ideia de que a repressão sexual fosse psicologicamente nociva, uma teoria totalmente contrária à tradição católica do celibato do clero.

Além da teoria freudiana da repressão sexual, Kennedy também importou a teoria de Erikson do desenvolvimento do ego, segundo a qual cada pessoa passa por oito fases de desenvolvimento:

1) o primeiro ano de vida, 2) até o segundo ano, 3) de três a seis anos, 4) de seis anos até a puberdade, 5) adolescência, 6) primeira maturidade, 7) maturidade jovem e mediana, e 8) maturidade tardia. Cada fase tem de ser superada para se ter um desenvolvimento normal. A fase seis exige intimidade e expressão sexuais.

Segundo os ensinamentos da Igreja Católica, “a castidade é um aspecto da temperança que inclina, para fins ascéticos, a pessoa a evitar deliberadamente as relações sexuais,.” Segundo Freud e Erickson, qualquer renúncia desse tipo em nome da religião, que ambos consideravam uma perigosa ilusão, “seria anormal e possivelmente patológica.”
Quando a pesquisa de Kennedy foi publicada em forma de livro, com o título The Catholic Priest in the United States: Psychological Investigations (O Sacerdote Católico nos Estados Unidos: Investigações Psicológicas), as conclusões foram previsíveis, dadas as premissas em que ele baseou o estudo. Dos 271 padres investigados, Kennedy descobriu que apenas 19 (ou 7 %) podiam ser considerados psicologicamente “desenvolvidos.” A imensa maioria dos padres americanos eram “não desenvolvidos,” porque não tinham praticado atividades sexuais.
O padrão que servia de referência para julgar os sacerdotes era a escala de desenvolvimento de Erickson. Porque a maioria dos padres era subdesenvolvida, eles permaneciam na Fase Seis ou na primeira fase adulta, pois, para superarem a Fase Seis, os padres deveriam participar de "intimidades sexuais."
Alega Guinan que o estudo de Kennedy contribuiu para a crise de abusos sexuais, por dar a impressão de que o celibato nada mais fosse do que repressão, e que a repressão fosse nociva à saúde:
Se a repressão é retratada como psicologicamente nociva, pode-se afirmar que as Psychological Investigations de Kennedy e sua psicologia falha deram apoio e justificativa a crenças que levaram ao abuso sexual de menores. A insistência por parte de Erickson de que a intimidade sexual fosse essencial para se atravessar com sucesso a fase seis do desenvolvimento justificava a prática sexual em geral, mas também a atividade sexual predominantemente com menores do sexo masculino, que, pela proximidade, eram os alvos dos padres predadores.

Guinan prossegue culpabilizando Kennedy pelos atuais escândalos que envolvem padres:

Quando as Psychological Investigations foram publicadas em 1972, elas tinham como base a psicologia materialista de Erickson e de Freud, que encarava o comportamento sexual sem restrições como inevitável e saudável. Os programas de formação dos seminários, bem como os padres individualmente, aceitaram Kennedy de maneira pouco crítica e num esforço para superar a Fase Seis e se tornarem normais através da intimidade sexual, começaram a ter uma vida sexual ativa. Uma vez que os padres, muitos dos quais de inclinação homossexual, já tinham acesso a adolescentes de sexo masculino, esse grupo vulnerável de vítimas era visado de maneira desproporcional. Enquanto alguns predadores estavam envolvidos em estupros em série, muitos estavam envolvidos apenas em casos isolados. No entanto, a maioria implicava em coerção e todos eles constituíam violações do sexto e do nono mandamentos, além do voto de castidade. O escândalo, que agora envolvia centenas de casos, provocou um dano significativo nos esforços de evangelização nos Estados Unidos, sem falar nos vertiginosos prejuízos financeiros.

Em 1976, a revolução que Reich previra como resultado da sexualização do clero revelou-se às claras. O evento inaugural foi a comemoração do bicentenário da América conhecida como a Conferência de Call to Action. A revolução era liderada pelo clero sexualizado. Call to Action era o equivalente católico dos juramentos do Jeu de Paume. A Revolução acontecia agora às claras. O vetor de transmissão revolucionária era o sistema educativo da Igreja.

Dois dos participantes da conferência de Call to Action eram o Dr. e Sra.. John Krejci. Em 1996, o Dr. e a Sra. Krejci foram excomungados pelo Bispo Fabian Bruskewitz, ordinário da diocese de Lincoln, Nebraska, por pertencerem a uma organização anticatólica, a saber, Call to Action. Durante a década de 1960, o Professor Krejci era o padre Krejci, um sacerdote que fazia o seu doutorado de teologia e a Sra. Krejci era uma freira chamada Jean Gettelfinger. O Sr e a Sra. Krejci conheceram-se em Notre Dame. Como muitos outros que frequentaram a universidade, o padre Krejci e a irmã Gettelfinger se casaram, e ao fazerem isso deixaram suas respectivas ordens religiosas.

O problema real era o clero que não viu razão para largar a batina, por ser homossexual. Uma vez que os heterossexuais partiram e se casaram, a Igreja ficou com um um problema homossexual sério. Diz Germain Grisez que a maior parte dos “abusos” é constituído por sedução da parte de padres homossexuais:

Os bispos e seus porta-vozes devem reconhecer francamente que a maior parte dos crimes sexuais cometidos por eclesiásticos que vieram á luz foram seduções de adolescentes e jovens por padres homossexuais. Uma vez que Jesus encarrega os bispos do cuidado pastoral das almas, os bispos que deixaram de fazer tudo o que podiam para prevenir ou limitar os crimes de um padre deveriam refletir muito profundamente sobre a natureza moral e espiritual e a gravidade de suas omissões e atos. Feito isso, tais bispos deveriam, como reparação, reexaminar suas consciências, arrepender-se dos pecados que antes desdenharam e começar a fazer o que podem e devem.

Foi negada à Igreja a possibilidade de resolver o seu problema homossexual, pois a cultura dominante que estava fazendo as acusações se recusava a admitir que a homossexualidade fosse um problema, e muito menos o problema que dilacerava a Igreja. O caso é ainda mais complicado pela hipocrisia e pelos dois pesos, duas medidas das instituições que estavam agindo como juiz, júri e carrasco nos escândalos de abusos sexuais. Durante todo o período em questão, a mídia continuou a fazer reivindicações contraditórias acerca da Igreja. Por um lado, a mídia, sobretudo durante a década de 70, afirmava que devemos agir com base em nossos impulsos sexuais, congruentes ou não com a lei moral. Trinta anos depois, as mesmas instituições alegavam que certas pessoas deviam ser punidas por fazerem o que elas haviam dito que tais pessoas deveriam fazer.

Por um lado, a mídia alega que não há nada de errado com a homossexualidade, ignorando o fato de que 80% dos casos realmente provados envolvem comportamento homossexual entre eclesiásticos e vítimas de idade superior à da puberdade. Porque a campanha contra a Igreja coincidiu no tempo com uma campanha promovida pelo mesmo grupo de pessoas para legitimar a homossexualidade, foram negados à Igreja todos os meios efetivos de se defender contra a quinta coluna sexual que se estabelecera na Igreja logo após a implementação do Vaticano II. O professor Schockenhoff afirma que o “Diálogo com os Judeus” é hoje uma parte não negociável do ensino da Igreja, mas durante a crise dos abusos sexuais, os “irmãos mais velhos” da Igreja apoiaram a quinta coluna homossexual, origem das desgraças da Igreja. Durante o debate que levou à aprovação da legislação federal de saúde, todas as principais organizações judaicas assinaram um amicus curae solicitando que a administração Obama não permita à Igreja Católica isenções por motivo de consciência quando se trata de contratar homossexuais. Os atos falam mais alto do que as palavras. Apesar de todo o diálogo promovido depois do Vaticano II, não houve colaboração na área da liberdade religiosa e da liberdade de consciência no que se refere à legislação de saúde e os problemas que ela criava para os católicos. Enquanto muitos deles talvez não tivessem nenhuma outra intenção além de promover o programa liberal, o resultado líquido de sua intervenção foi a criação de uma quinta coluna dentro da Igreja católica, a qual, em razão da natureza de suas atividades sexuais, pode ser usada para criar toda uma nova série de processos judiciais. Com irmãos mais velhos como esses, quem precisa de inimigos?

Quando se trata da preocupação da mídia com os escândalos sexuais da Igreja, está ficando cada vez mais difícil distinguir os incendiários do corpo de bombeiros. Como escreveu o falecido Tom Herron, em Culture Wars:

O padre Shanley, de Boston, costumava ser o destaque do premiado Boston Globe no início da década de 70, quando era um padre cabeludo que trabalhava com jovens, falava contra a moral católica e era conhecido como um dos fundadores da NAMBLA (North American Man-Boy Love Association. - Associação norte-americana pelo amor entre homens e meninos). Trinta anos depois, o mesmo jornal, The Boston Globe, “foi crucial em trazê-lo de volta do seu retiro na Califórnia para ser julgado e preso em Massachusetts.”


GIFT e Dignitas Personae 12

Uma das mais fortes apresentações na Conferência Linacre foi a de um jesuíta chamado Kevin Flannery. Vinte e quatro anos atrás, ele e Paul Mankowski, outro palestrante jesuíta presente à conferência, apareceram em minha casa como padres recém-ordenados. Na época, considerei aquilo um sinal de esperança de um brilhante futuro na Igreja que os jesuítas ordenassem homens dedicados como aqueles. O que eu devia ter dito àqueles brilhantes rapazes na época era: “se você quer servir o Senhor, prepare-se para sofrer.” Paul Mankowski, que acabaria formando-se em filologia semítica em Harvard enquanto servia como treinador de boxe, passaria os 25 anos seguintes girando pelo ringue com seus superiores jesuítas, esgrimindo contra eles jabs teológicos como “aceito a autoridade de meus superiores jesuítas na medida em que ela for congruente com os ensinamentos da Igreja Católica.” O padre Mankowski passou anos lecionando no Biblicum, mas como parte da batalha travada acerca de sua lealdade aos jesuítas e seus votos finais ele foi sumariamente despedido e mandado a um colégio de gueto em Chicago para ensinar latim aos calouros.

O padre Flannery saiu-se melhor na Universidade Gregoriana de Roma, onde hoje é decano, mas isso só lhe permitiu envolver-se em abstrusas batalhas doutrinais acerca de bioética na Congregação para a Doutrina da Fé. Sua conferência foi sobre uma dessas batalhas. Considerou-se que o parágrafo 12 de Dignitas Personae, o mais recente documento sobre a tecnologia da fertilidade publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, implicava que procedimentos como a GIFT (ou Transferência Intrafalopiana de Gametas) são moralmente aceitáveis. O padre Flannery acha que não, pois eles “implicam um terceiro fator ativo”, o que viola a integridade do ato sexual. O padre Flannery usou o resto de sua palestra para explicar como surgiu essa contradição e como ele, como um fiel católico, teve de lidar com ela:

Como é que a Congregação para a Doutrina da Fé foi cometer essa confusão de estabelecer as condições dos procedimentos moralmente aceitáveis e depois dizer que são aceitáveis alguns procedimentos que não podem satisfazer tais condições? Na minha opinião, o que aconteceu foi que, quando a Igreja começou a tratar destas questões e suas ideias eram mais claras do que são hoje, ela estabeleceu princípios válidos para as suas análises. Ela sempre teve consciência de haver casais — tanto na Igreja quanto fora dela – que têm dificuldade para conceber e querem desesperadamente ter filhos: desejo em si mesmo muito natural e, portanto, bom. Assim, ao mesmo tempo que continuava a propor os sólidos princípios que formam o núcleo do ensinamento da Igreja, a Congregação aproveitou todas as oportunidades oferecidas pela linguagem em que tais princípios são formulados – ou que elas parecem oferecer — para aprovar procedimentos que possam permitir aos casais terem filhos.

O padre Flannery reforçou sua tese citando um documento atrás do outro que mostravam que “A este respeito, o ensinamento do magistério já é explícito” [“Ad rem quod attinet, magisterii doctrina iam explicata est”]. Ele tentou, então, explicar como uma doutrina que “já é explícita” possa sofrer corrupção, por meio de uma análise minuciosa do discurso de Pio XII às parteiras, em 1949:

Ele começa dizendo que a fertilização artificial fora do casamento deve ser condenada como imoral e que a criança nascida de tal prática seria ilegítima. (Repetidas vezes em seus discursos acerca desta questão, Pio XII exprime preocupação pela educação da prole e, portanto, também pela sua legitimidade.) Diz ele, então, que a fertilização artificial “dentro do casamento, mas efetuada com a participação ativa de terceiros, é igualmente imoral e, como tal, deve ser condenada sem mais.”xx O problema com tal procedimento, diz ele, é que, “entre o esposo legítimo e a criança, fruto da participação ativa de terceiros (mesmo com o consentimento do marido), não existe elo de origem: nenhum vínculo moral e jurídico de procriação conjugal.”xxi Com efeito, o problema é que o marido neste casamento não gerou a criança que resulta do procedimento, pois a geração foi feita por terceiros. É claro que aqui o problema para Pio XII não é a ilegitimidade, pois ele fala do marido como legítimo; o problema é antes quem gerou a criança: quem é o iniciador, o agente, de cuja ação resulta a geração de uma criança?

Como, então ocorreu a corrupção da doutrina?

A palavrinha iam inserida na paráfrase constitui toda a diferença. Enquanto Pio XII fala simplesmente do “ato natural efetuado de maneira normal” [“l'acte naturel normalement accompli”], a paráfrase, impondo um sentido ao particípio “accompli” que ele dificilmente pode ter, fala de um ato que foi efetuado normalmente no passado. De repente, o Sumo Pontífice não está mais condenando todos os tipos de fertilização, mas aprovando um tipo — um tipo em que claramente o ato de geração não é o ato conjugal, mas um ato executado por técnicos num laboratório.

O padre Flannery vê-se assim diante de um dilema.

Tudo isso coloca aqueles (como eu) que creem dever aos ensinamentos do magistério religiosum voluntatis et intellectus obsequium diante de uma espécie de dilema. Uma maneira bem-vinda de sair do dilema seria descobrir que nós (eu) estamos simplesmente errados: há algo de errado na presente análise e não há nada de contraditório no ensinamento de DP§12 (e no ensinamento a ele associado em Donum vitae).

Mas digamos eu eu não esteja errado. É logicamente impossível dar obsequium(de qualquer tipo) a um conjunto de ideias contraditórias e reconhecidas como tais: o obsequium implica no mínimo o reconhecimento de que um conjunto de ideias pode ser verdadeiro, mas uma contradição não pode ser verdadeira.

A saída para este dilema não se encontra em deixar a Igreja, porque:
. . .descobrir tal contradição não deixa os filhos e filhas obedientes da Igreja completamente desamparados, pois o ofício docente da Igreja se exerce dentro de uma tradição de reflexão moral inspirada pelo Espírito Santo. Um ou dois parágrafos incoerentes num documento magisterial — algo inevitável quando seres humanos escrevem os documentos — não eliminam a tradição, pelo contrário: os parágrafos defeituosos (se realmente o forem) devem ser julgados do ponto de vista da tradição. Esta é a atitude correta a adotar em relação aDignitas personae §12, que deriva de Donum vitae, que por sua vez afirma que “sob este aspecto” — isto é, com relação à fertilização artificial homóloga — “o ensinamento do magistério jé é explícito.”xxii


Nova Luz

A luta do padre Flannery lança uma luz nova nas queixas do bispo Williamson. Para começar, ao contrário do bispo Williamson, que se queixa de algumas afirmações ambíguas em documentos conciliares, o padre Flannery crê ter topado com uma real contradição no ensinamento da Igreja. A única maneira pela qual a contradição em DH 12 pode ser resolvida é a maneira como a Igreja resolveu seus problemas no passado, ou seja, retornando à questão e reinterpretando-a à luz da tradição. Non datur tertius. Não há outra maneira. Fingir que há é ser radicalmente antitradicional.

É justamente isto que a FSSPX se recusa a fazer, ao negar-se a afirmar sua aceitação dos documentos do Vaticano II tais como interpretados à luz da tradição. Tudo o que o bispo Williamson e a FSSPX têm de fazer para serem readmitidos na Igreja é afirmar o seguinte: “Aceito os documentos do Vaticano II à luz da tradição.” Não têm de afirmar que morreram um número x de judeus no holocausto. Não têm de aceitar a interpretação dada pelo professor Schockenhoff’ ao Vaticano II ou sua adesão a “Gespraech mit dem Judentum.”

Quando o bispo Williamson me diz que a aceitação do Vaticano II à luz da tradição é a condição imposta por Roma à readmissão à Igreja, exclamei sem querer: “Só isso?”

Não é tão simples,” replicou Williams.

É, sim.” Eu queria ter dito, mas não disse.

Se assinarmos o documento, estaremos afirmando a validade do Vaticano II, o que significa afirmarmos a coisa mesma que está destruindo a Igreja.”

Palavras obviamente absurdas, mas me calo e tento levar a conversa para outra direção.

A Igreja falhou em sua missão?” pergunto.

Não,” responde o bispo Williamson.

Então não há razão para separar-se da Igreja.”

Não nos separamos da Igreja.”

Então, qual a razão das negociações?”

Logo fica claro que ao objetivo é convencer Roma a adotar o ponto de vista da FSSPX . Como mais um sinal de que as discussões estão fadadas a não dar em nada, o bispo Williamson me disse que um padre da FSSPX tem planos para usar o encontro com a comissão Ecclesia Dei na primavera de 2011 como uma oportunidade de explicar a Roma os erros de Dignitatis Humanae. Com isso fica claro que esse diálogo se tornou uma Missão Impossível por muitas razões. Primeiro, por concentrar-se em questões doutrinais em geral e no Vaticano II em particular, ele evitou a questão principal que precisava ser resolvida, a saber, o cisma, que nada tem a ver com a doutrina. Em segundo lugar, há amplos segmentos da hierarquia que confundem os documentos do Vaticano II com o espírito do Vaticano II, e com isso querem fazer a readmissão à Igreja dependente de uma interpretação teológica particular dos documentos conciliares, e não de uma afirmação dos documentos mesmos “à luz da tradição.” O bispo Williamson parece decidido a associar Roma com esse grupo, concedendo com isso uma vitória imerecida aos George Weigels e professores Schockenhoffs, e permitindo a eles imporem, sem resistência, um teste neoconservador de legitimidade ao resto da Igreja.

Como se em resposta à minha pergunta acerca do objetivo das negociaçõe, o bispo Williamson se levanta para buscar uma folha grande de papel. Ofereço uma página da minha caderneta, mas não é o bastante para carregar toda a extensão da sua ideia, que é que ao longo da história, surgiram movimentos que se separaram da Igreja, como os arianos, os protestantes e os revolucionários na França, mas através de tudo isso a Igreja manteve o seu compromisso com a tradição e as escrituras. Isto me soa como um argumento contra a posição da FSSPX , mas só porque vejo a Igreja e a FSSPX como duas entidades separadas. Para o bispo Williamson, elas são uma e a mesma coisa. O que é frustante quando se conversa com ele é a sua incapacidade de reconhecer as premissas sobre as quais seu argumento se baseia. Assim, quando pergunto se a FSSPX é a Igreja, ele imediatamente diz que não.

Nossa conversa vai e vem acerca da história da Igreja. Sua Excelência cita a Inquisição, confessando que se ela fosse restabelecida, ele se reuniria à Igreja. Recordo que houve um tempo em que não havia Inquisição, mas nunca houve um tempo, desde que Cristo caminhou pela terra, em que não havia Igreja. Ele evoca a doutrina, mas o mesmo se aplica neste caso. Houve um tempo em que nenhum cristão podia dizer com certeza que Cristo era Deus verdadeiro e homem verdadeiro, porque a fórmula não fora articulada, mas nunca houve um tempo em que não houvesse Igreja. Eu então menciono a posição da Igreja quanto à usura, que ainda está à espera de sua explicação definitiva.

Já chegou a hora do almoço e a discussão teológica chega a um final sem solução. Depois do almoço, Sua Excelência tira um cochilo e eu preparo a minha palestra caminhando pela trilha de cascalho no jardim de baixo, tomando notas mentalmente sobre a palestra que aos poucos são suplantadas por pensamentos sobre o que eu faria se aquele jardim fosse meu. Quando o padre Morgan, o superior da FSSPX inglesa, aparece para me passar o cronograma para o resto da tarde, digo a ele que o centro do jardim seria o lugar ideal para uma fonte.

Minha mãe disse a mesma coisa,” tornou ele.

Por fim, a palestra correu bem, com uma animada sessão de perguntas e respostas em seguida, mas ninguém na plateia se referiu à conclusão da palestra, que reproduzo aqui integralmente:

Sim, a Igreja foi negligente ao não pregar o evangelho, sobretudo em questões sexuais. Sim, a Igreja preferiu a terapia às sanções penais exigidas pelo direito canônico. Sim, a Igreja está sendo punida por seguir o conselho dos psicólogos. Sim, os escândalos atuais estão sendo orquestrados pelo inimigos tradicionais da Igreja, protestantes e judeus, para destruirem as culturas tradicionais e tornar o mundo pronto para o Capitalismo e o reino universal de Mammon. Mas qual é a resposta adequada?

Respondamos a esta pergunta explicando qual não é a resposta adequada. Numa entrevisa recente, o bispo Fellay falou acerca do estado atual da Sociedade de São Pio X. Depois de sacrificar o bispo Williamson, o bispo Fellay seguiu dizendo que “a Igreja está com câncer” e que “não queremos abraçar a Igreja porque poderíamos pegar câncer.”

Há muitas coisas que se podem dizer sobre uma declaração dessas. Em primeiro lugar, o câncer não é contagioso. Segundo lugar, esta imagem — a Igreja tem câncer — não pode ser encontrada em lugar nenhum na tradição da Igreja, nem nos Evangelhos, nem nos Atos dos Apóstolos, nem nas Epístolas, nem nos textos dos padres da Igreja. A razão é muito simples: ela não pode corresponder à realidade.

Se a imagem do câncer é errônea, antitradicional e não-bíblica, que image corresponde à situação da Igreja em nossos tempos? A resposta é a história em Marcos 4:37-41, a história de Jesus que acalma a tempestade. Diz ela

Começou a soprar um vento muito forte, e as ondas lançavam-se contra a barca, de modo que a barca já se estava enchendo de água. Jesus estava na parte de trás da barca, dormindo com a cabeça num travesseiro. Os discípulos acordaram-n'O e disseram-Lhe: «Mestre, não Te importa que morramos?» Então Jesus levantou-Se, ameaçou o vento e disse ao mar: «Cala-te! Acalma-te!» O vento parou e tudo ficou calmo. Depois Jesus perguntou aos discípulos: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Os discípulos ficaram muito cheios de medo e diziam uns aos outros: «Quem é este homem, a quem até o vento e o mar obedecem?»

Todos os Padres da Igrejas são unânimes em dizer que o barco é a Igreja e que o barco será sacudido pelas tempestades, ou seja, pelas campanhas orquestradas para destruir a Igreja.

Santo Hilário de Poitiers escreve que Cristo “nos ordena estarmos dentro da Igreja e em perigo até quando, retornando em Seu esplendor, dará salvação a todo o povo... Enquanto isso, os discípulos são sacudidos pelo vento e pelas ondas; lutando contra todas as tempestades deste mundo, provocadas pela oposição do espírito imundo.”

Santo Agostinho nos diz para “Ver na barca a Igreja e a no mar tempestuoso este mundo. . . . Pois toda vez que alguém de má vontade e grande poder proclama uma perseguição contra a Igreja, uma potente vaga se ergue contra a barca de Cristo.” Devemos permanecer na barca sacudida pelas tempestades até, “quando a noite estiver perto do fim, Ele vier, no fim do mundo, quando a noite de iniquidade tiver passado, para julgar os vivos e os mortos.”

Quando Cristo finalmente vier, segundo Santo. Hilário, Ele vai

encontrar a Sua Igreja ferida e sacudida pelo espírito do Anticristo e pelas perturbações deste mundo E porque por uma longa experiência do Anticristo serão incomodados a cada nova provação, sentirão medo até à aproximação do Senhor, desconfiando de aparições enganosas. Mas o bom Senhor acaba com seu medo, dizendo Sou eu; e como prova de Sua presença põe fim ao pavor de um naufrágio iminente.

Do ponto de vista do fiel que tem de arrostar tais tempestades, sempre parece que Jesus esteja dormindo, isto é, desatento a seus apuros.

Mas isso, é claro, não é verdade. Deus está sempre com a Sua Igreja, mesmo quando parece não estar. Pular da barca significa morte imediata. Porque Deus pode acalmar qualquer tempestade, o verdadeiro problema não é a magnitude da tempestade, mas, como observa Jesus, a magnitude de nossa fé.

Na atual situação, a única coisa que entrava a reconciliação da FSSPX com a Igreja é a assinatura do bispo Williamson (e de três outros bispos da FSSPX ) num documento que ele mesmo admite que o arcebispo Lefebvre teria assinado. Quatro dias depois de proferir a minha palestra no quarte-general da FSSPX em Wimbledon, era evidente que a minha proposta ao bispo Williamson havia fracassado. No dia 28 de junho de 2010, Sua Excelência escreveu em seu blog que:

O arcebispo Lefebvre optou por uma terceira via, entre os dois extremos ou da Verdade ou da Autoridade. Sua via, em que tem sido seguido por esta FSSPX , consistia em manter-se fiel à Verdade Católica, mas sem desrespeitar a Autoridade da Igreja nem desacreditar sistematicamente do estatuto de seus representantes. Este é um equilíbrio nem sempre fácil de conservar, mas deu frutos católicos no mundo inteiro e sustentação a um resto de católicos fiéis com a verdadeira doutrina e os verdadeiros sacramentos nos 40 anos que passamos até agora no deserto Conciliar (1970-2010).

Nesse deserto nós, o rebanho católico, talvez ainda tenhamos de nos dispersar ainda por algum tempo, enquanto o Pastor é atacado em Roma (Zac.XIII,7, citado por Nosso Senhor no jardim de Getsêmani – Mt.XXVI,31). Neste Getsêmani da Igreja, precisamos de compaixão com nossos companheiros de rebanho . . . Mas isso de modo algum significa que a terceira via traçada pelo arcebispo Lefebvre tenha cessado de ser a certa.

Non datur tertius. Quando se trata da Igreja, não há terceira via. O bispo Williamson afirma aqui todas as proposições — a Igreja falhou em sua missão, a FSSPX é a Igreja —que negara em nossa conversa. A única coisa que permanece igual é a inflexível recusa de restaurar a comunhão, até mesmo em termos que o arcebispo Lefebvre teria aceitado.

Em sua história da rebelião hussita na Boêmia, Aeneas Silvio Piccolomini, que adotou o nome de Pio II ao tornar-se papa, refere-se a Jan Zizka, o gênio militar caolho que perdeu os dois olhos no comando dos invencíveis exércitos hussitas, como “o comandante cego de um povo cego.” A frase não me saiu da cabeça durante toda a conversa, mas sobretudo quando o bispo Williamson disse que a sociedade estava em vias de se desintegrar, pois ele parecia determinado a se manter fiel a uma organização fadada de qualquer forma à autodestruição.

Num gesto de amizade, dei ao bispo Williamson um exemplar de The Jewish Revolutionary Spirit and its Impact on World History. Na primeira página do livro, escrevi uma dedicatória: “Ao bispo Williamson,” e em seguida acrecentei “Ut unum sint.” Ele riu ao ler aquilo, e todos à mesa riram quando eu disse que um artefato como aquele estava fadado a acabar no museu do holocausto, em Washington. O que mais tarde me ocorreu é que a FSSPX se parece mais com os judeus do que qualquer um de nós estava disposto a admitir naquela hora. Como para os judeus, a hora de sua visitação chegou e a FSSPX é cega demais para vê-la. Não foram capazes de assinar um documento que o arcebispo Lefebvre teria assinado sem pestanejar, e ao deixarem de assiná-lo não conseguiram enxergar que estavam fazendo mais em prol da agenda modernista a que se opõem ostensivamente do que se tivessem aceitado sua justa posição como membros dóceis da Igreja.

Em suma, a dedicatória não era motivo de riso. A unidade da Igreja não é um aspecto opcional, como faixas brancas no pneu do carro. Ela está bem no coração da concepção de Cristo sobre a Igreja e também no coração das desgraças que afligiram o mundo desde a cataclísmica violação dessa unidade que se seguiu aos eventos de 1517. Tal situação não foi melhorada pelos acontecimentos de 1988.

O bispo Williamson tem 69 anos. Um a menos do que o quinhão de anos que a Bíblia concede aos homens. Se a fraternidade vai desintegrar-se de qualquer modo, argumentei, então que seja por sua assinatura unilateral do acordo com Roma. Quando lhe sugeri isto, ele simplesmente ergueu as mãos ao céu, como se dissesse que tal sugestão era absurda demais para ser posta em palavras. A sugestão está longe de ser absurda. Na verdade, em matéria de opções, esta é a única que lhe resta.



i http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1343575?eng=y
ii Durch exegetische Umdeutung und eine Neujustierung des Textsinns, die sich als dessen notwendige Inschutznahme gegenüber nachkonziliaren Fehlentwicklungen und Mißverständnissen ausgibt, soll einer antimodernen Protestbewegung im Gewand des vorkonziliaren Katholizismus die zumindest verbale Anerkennung der Gewissens- und Religionsfreiheit abgerungen werden, die den Kern der modernen Welt und ihrer Freiheitskultur ausmacht.

Theologisch jedoch ist ein derartiger hermeneutischer Drahtseilakt, der die Quadratur des Kreises versucht, ein Spiel mit dem Feuer

Durch den Vorgang einer offiziellen Interpretation wird zentralen Konzilstexten ein anderer Sinn beigelegt, als er diesen nach dem Willen der Konzilsmehrheit zukommen sollte.

Vielmehr steht die Richtungsentscheidung über den zukünftigen Weg der Kirche erneut auf dem Spiel, die das Konzil treffen wollte, indem es sich für die Öffnung zur modernen Welt, für die Anerkennung ökumenischer Gemeinsamkeiten mit den orthodoxen und reformatorischen Kirchen sowie für das Gespräch mit dem Judentum und den Dialog mit den Weltreligionen aussprach.
iii Ibid.
iv Wilhelm Reich, The Mass Psychology of Fascism, p. 178.
v Reich, p. 181.
vi Reich, p. 184.
vii Reich, p. 191.
viii Reich, p. 195
ix Reich, p. 196
x Reich, p. 197
xi Reich, p. 218
xii Hans Fingeller, “Green Pedophila: Danny and the Day-Care Center,” Culture Wars, May 2001, p. 34.
xiii http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/10425090.stm
xiv Mary Kenny, Good-bye to Catholic Ireland, p. 314
xv Kenny, p. 315.
xvi Kenny, pp. 326-7.
xvii Kenny, p. 325
xviii Kenny, p. 9
xix Maslow, Journals, pp. 166-68, my emphasis.
xx“La fécondation artificielle dans le mariage, mais produite par l’élément actif d’un tiers, est également immorale et, comme telle, à réprouver sans appel” [AAS 41 (1949), 560]. The expression “active factor of a third party” (“l’élément actif d’un tiers”) is certainly cumbersome, but it has the advantage of bringing into relief the idea that the determinative presence of any action (“élément actif”) other than the conjugal act would be problematic.
xxi“Mais entre l’époux légitime et l’enfant, fruit de l’élément actif d’un tiers (l’époux fût-il consentant), il n’existe aucun lien d’origine, aucun lien moral et juridique de procréation conjugale” [ibid.].
xxiiAgradeço ao prof. John O’Callaghan, Msr. Gerard McKay, pe. Stephen Brock e pe. Robert Gahl pelo comentários e críticas. Obrigado também áqueles (e, em particular, ao prof. Luke Gormally e prof. Alexander Pruss) que ofereceram comentários e críticas na conferência intitulada “Fertility, Infertility and Gender,” patrocinada pelo Linacre Centre for Healthcare Ethics de Maynooth, Irlanda, 16-18 de junho de 2010.